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O QUE NOSSAS TEORIAS DE CONSPIRAÇÃO DIZEM SOBRE NÓS?



Existe uma verdade que muitos de nós não sabe ou finge que não sabe: o evangélico médio brasileiro é sedento por teorias de conspiração. Não importa se essa grande conspiração que irá nos destruir vem de símbolos utilizados no filme Harry Potter, o mal do Rock (como nos anos 80/90), na orquestração Illuminati ou no grande plano político comunista que vai matar todos os cristãos do mundo, uma coisa é perceptível em todas elas: há sempre uma dicotomia gritante que garante que “eles” (e aqui adicione a figura, cantor, ativista, partido que quiser) são nossos inimigos e que irão nos destruir, caso não acordemos e lutemos contra essas forças do mal.
A lógica da paranoia evangélica é baseada em fundamentações rasas que nascem da mesma lógica maniqueísta de um filme da Marvel ou DC em que o herói perfeito tem a incumbência de salvar o mundo das garras do grande vilão tenebroso e malvado que não possui nenhum traço de bondade. Não importa para o paranoico se tudo o que contam como grande plano para acabar com os evangélicos, a família, o casamento, a infância e entre tantas coisas não têm fundamentação ou que não existe perseguição institucional, política e religiosa contra o cristianismo no Brasil, ele há de sempre erigir um novo inimigo para que todos nós prestemos atenção e desestabilizemos. A lógica é de guerra. O objetivo e a origem da guerra? Não existem.
Para o protestante evangélico médio viciado em teorias de conspiração, estamos passando por uma sofrível e deplorável perseguição, orquestrada por um grande sistema que quer desestabilizar nossa liberdade de culto, nossa educação para nossos filhos, nossos casamentos e nossas famílias. O que passa despercebido, seja de forma proposital ou não, é que o Brasil é um dos países com mais cristãos do mundo, segundo o último censo do IBGE em 2010, 86,8% dos habitantes do país são cristãos, sendo 64,6% católicos e 22,2% de evangélicos, tendo a massa evangélica como mais possível de crescer e até de se igualar ou passar a maioria católica do país (em 26 anos, os evangélicos cresceram de 9% para 22,2%, o que aumenta a probabilidade de uma explosão em crescimento para os próximos anos). Além dos números, a nossa cultura é permeada do imaginário cristão, nossa linguagem, nossa forma de lidar com a morte, casamento e entre tantos refletem o modus vivendis cristão institucional. Somado a toda essa força em número de pessoas e na própria cultura, nós temos, especificamente no seio evangélico, mais representantes nos espaços públicos, uma bancada inteira dentro do congresso (bancada essa que se diz representante dos interesses da igreja) e igrejas evangélicas neopentecostais sendo vistas como a galinha dos ovos de ouros para políticos, lugares privilegiados e requintados em que candidatos se sentam ao púlpito, falam de suas propostas e recebem a “bênção” da igreja (ou de seus líderes) para aquela denominação de não sei quantos mil membros, em uma atitude parecida ao coronelismo, votar em peso para assim lutar contra essa tal de perseguição religiosa contra nossos valores.
Será realmente que somos nós os perseguidos?
Apesar do crescente número de cristãos, da grande representação política e econômica que temos, nunca em tantos anos houve tanta violência, derrocada da moral, escândalos em nosso meio e morte de grupos realmente minoritários; contínuo avanço de mortes e violência contra mulher, sendo 40% delas evangélicas e recebendo vista grossa e silenciamento em muitas igrejas (não todas, aqui deixo claro), intolerância religiosa para religiões de matriz africana, mortes e violência de pessoas da comunidade LGBT, violência e mais mortes contra jovens negros em periferias, além de muito pouco caso com o pecado estrutural do racismo, do machismo e entre outros. Os números não mentem, mas talvez o discurso de que somos nós os perseguidos do país seja completamente mentiroso.
Além de tudo isso, ainda se tem uma espécie de “patrulha do verdadeiro cristão” que julga a salvação uns dos outros baseando-se estritamente no discurso político e ideológico: “não pode isso porque isso parece com a esquerda, a esquerda é comunista, o comunismo é ateu, o comunismo matou vários cristãos, o comunismo vai nos matar também, logo, você não é cristão por querer qualquer coisa parecida com alguns temas da esquerda” o mesmo valendo para a Direita também (“você não pode querer um estado mínimo porque Jesus queria a repartição dos bens”; “ser conservador faz de você um cristão falso”). Percebam que além da arrogância e uma espécie estranha de ousadia em querer ditar quem é e quem não é salvo, os critérios para essa salvação não são a Fé na obra perfeita de Cristo como ponte de reconciliação entre nós e o Deus trino, os critérios são simples e puramente políticos e ideológicos. É uma heresia que várias vezes os apóstolos lutaram contra: a obra no lugar da graça de Deus (como em 1 Tm. 6:3; Ef. 4:4). Deixarei alguns links de textos de teólogos e pastores sérios que falam sobre esse perigo de cair nessa tentativa de legalismo causado pelas tais “cosmovisões cristãs”.
É só olhar na Bíblia, nossa regra de fé e prática: quantos dos seguidores de Cristo, profetas e apóstolos namoraram com o Império? A igreja primitiva tinha realmente tanto poder político a ponto de ditar as regras do jogo? Será que foi em concordância com os governos, sistemas políticos que grandes homens e mulheres de Deus morreram em nome de Cristo, sendo torturados, crucificados, queimados, decapitados?
A gente não faz ideia do que é perseguição, os nossos irmãos e irmãs em outros países, estes sim sabem e nem por isso fugiram dessa perseguição ou montaram um complexo forte político e econômico para calar os perseguidores. Montamos esse discurso paranoico dentro de uma realidade que nos diz o completo contrário para, talvez, aliviarmos a culpa de que no lugar de Cristo, os deuses da Igreja (cristã, em geral) aqui no país são na verdade o dinheiro, o poder e a glória.
A gente aceitou a proposta do Diabo ali no deserto porque o estilo de vida de Cristo é muito difícil para nós. É muito difícil admitir, por exemplo, que o grande problema da derrocada da instituição do casamento na sociedade não é por problemas de fora ou a militância LGBT, mas sim porque os cristãos evangélicos, por exemplo, batem recorde em número de divórcios, que inclusive são naturalizados dentro do seio da igreja; porque a tentação da traição, assédio e estupros maritais são naturalizados e porque muitos conselhos de líderes à mulher abusada é de que a culpa de tudo é dela, é falta de oração, é falta de fé. É difícil admitir que a culpa da queda da ideia de família tradicional não é de grupos externos, mas da hipocrisia de esposos que não amam, mulheres que não amam, filhos que não são amados e nossa energia sendo canalizada em lutas contra pessoas que têm na mente outro ideal de família no lugar de lutarmos pela restauração das nossas. É difícil para o evangélico médio brasileiro admitir que as pessoas talvez não queiram ouvir alguém pregando o evangelho no meio da rua porque a imagem que construímos na mente dessas pessoas é de que somos altos demais para a baixeza delas e não porque elas estão deliberadamente com o coração endurecido.
A gente cria o discurso da perseguição porque é duro demais perceber nosso pecado. Porque prantear, rasgar as vestes e chorar, como diz no livro de Tiago dá muito mais trabalho do que enriquecer, ganhar poder e usar desse poder para calar outras pessoas, que dizemos ser nossas inimigas.
Não digo aqui que a perseguição não virá, ela virá e nem que de alguma forma ela não existe. Não digo que não é verdade que seremos e somos, em muitas situações, ridicularizados por professarmos a Cristo e seu estilo de vida. Jesus nos dizia que seríamos bem-aventurados ao sermos perseguidos e mortos por seu nome, o apóstolo Paulo nos dizia que privilégio era ser perseguido em nome de Cristo. Tenho a impressão de que quanto mais marginais ao poder do estado, mais apegados ao poder de Deus e ser mais apegado ao poder de Deus nos faz vulneráveis a perseguições em nome desse Deus. Percebe como a lógica deveria ser outra? 
Enquanto não buscarmos ser o que Cristo gostaria que fôssemos enquanto igreja, nossa paranoia será um instrumento que blinda a podridão que habita em nós em nome de um discurso que garante que nossos “inimigos” ficarão quietinhos, para assim nos sentirmos mais santos.
O pecado mora mais embaixo.
Não é tempo de guerra contra as forças do mal, é tempo de arrependimento porque o pecado está dentro de cada um de nós.



Links dos textos e informações:














DISCIPULADO DESCOLONIZADO (POR EKEMINI UWAN)


O texto a seguir é uma tradução livre minha de um texto originalmente publicado no site Sistematic Theology da teóloga norte-americana Ekemini Uwan, inclusive incentivo você a dar uma passeada por ele e ver várias coisas incríveis sobre a conciliação da bíblia, teologia e da nossa negritude, tudo de forma equilibrada e bíblica.

Obs.: é de total responsabilidade da autora as opiniões, argumentos, escolha de conceitos aqui apresentados, mesmo eu concordando com o que foi expresso e, por esta razão, decidido publicar.

   

"A igreja nas colônias é a Igreja do povo branco, a Igreja do estrangeiro. Ela não chama o nativo para os caminhos de Deus, mas para os caminhos do homem branco, do mestre ou do opressor. E, como você sabe, nesta matéria, muitos são chamados, mas poucos escolhidos. "Fanon, Wreched of The Earth (42)
Embora o corpo de trabalho anticolonial de Fanon tenha sido escrito no século XX e no contexto colonial argelino, suas palavras ressoam no século XXI, particularmente no que diz respeito aos contextos brancos das igrejas evangélicas e multiétnicas da América. É um fato lamentável que a igreja foi o principal veículo através do qual a colonização se espalhou no continente africano e além dele. Atualmente, muitas igrejas evangélicas brancas continuam seguindo os passos de seus ancestrais, plantando igrejas em áreas urbanas no país que se assemelham às colônias.
É verdade que Jesus Cristo nosso Senhor nos ordenou, dizendo: "Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que eu vos ordenei "(Mateus 28: 18-19). Mas as questões que nos envolvem são estas: quais tipos de discípulos estão sendo feitos? As mentes e as vidas desses discípulos urbanos refletem um batismo de fé no homem-Deus palestino marginalizado, de pele escura, Jesus Cristo, que foi espancado e pendurado nu naquela cruz escarpada no Calvário? Ou o seu batismo reflete a fé em um Jesus capitalista branco, vestido com um blazer Polo, cáquis e mocassins? Há consequências graves para quem adorar o último, que não é mais do que um ídolo (Êxodo 20: 3-4), e discipular pessoas de cor para fazer o mesmo.
Dada a onipresença da supremacia branca nessa nação e o papel da igreja na perpetuação no passado e presente, chegou a hora da igreja implementar o discipulado descolonizado : resgatar pessoas de cor do desprezo pela pele, cabelo, corpo e cultura e trazê-los para o deleite e amor por quem Deus os criou para serem ontologicamente. O discipulado descolonizado honra Deus como o sábio Criador, ao mesmo tempo em que insta os crentes negros a se adequarem à imagem de Cristo através da obra habitacional do Espírito Santo.

O QUE É COLONIZAÇÃO?

A colonização é um processo violento pelo qual os colonizadores invadem a terra dos nativos, a fim de expulsá-los e saqueá-los através de estupro, genocídio e outros atos flagrantes contra os povos indígenas. Aqueles que sobrevivem são oprimidos, recrutados para a cidadania de segunda classe e trabalho forçado em suas próprias terras devido à implementação do racismo [e etnocentrismo] sistêmico.
 Outro aspecto da colonização, relacionado à nossa discussão aqui, exige a degradação da cultura, língua, costumes e personalidade dos nativos. "No contexto colonial, o colonizador termina seu trabalho de desestruturar o nativo quando o último admite alto e inteligivelmente a supremacia dos valores dos homens brancos" (Fanon, 43). Consequentemente, as mentes dos oprimidos foram colonizadas ao ponto de internalizarem essa ideologia colonialista da supremacia branca e começarem a detestar a si mesmos, suas culturas e suas tradições, simplesmente porque  são suas. A colonização é inerentemente violenta. Aqueles que não foram abatidos pelo genocídio são deixados para descobrir que uma guerra psicológica foi travada em suas mentes no momento em que os passos dos colonos marcaram o solo sanguíneo de sua terra natal. Esta é a psique da mente colonizada:

DISCIPULADO COLONIZADO

No que diz respeito aos crentes [de cor] sendo discipulados em um contexto urbano [ou seja, os que não são da colônia invadida por colonizadores, grifo meu], as mentes desses jovens discípulos podem ter uma aparência estranha à mentalidade colonial de nativos cuja terra foi colonizada. Ao contrário dos nativos colonizados, os discípulos urbanos são treinados, de forma implícita e explícita, para desprezar sua própria cultura, tradições e aparência. Implicitamente, eles são ensinados que apenas homens brancos têm "teologia sólida", porque esses são os únicos teólogos lidos e citados pelo discípulo urbano. Explicitamente, eles são informados de que suas adorações exuberantes são muito emocionais, o estilo de se vestir é muito escandaloso; que a música que eles escolhem para ouvir, seja ela de hip-hop cristão ou não, é irrelevante; que o seu domínio fluente do inglês vernáculo afro-americano é não refinado e simples; que seus corpos são apenas valiosos na medida em que podem ser fetichizados e objetificados. A negritude incorporada dos discípulos urbanos é tratada como algo a ser controlado, não deleitado.
As mulheres negras, em particular, sofrem o peso desta última afirmação, encontrando-se localizadas em uma objetificação constante, oscilando entre hipervisibilidade e invisibilidade. A hipervisibilidade mapeia as mulheres negras no que diz respeito à mercantilização de seus corpos, estereótipos sobre hipersexualidade, maneirismos, discurso e a infame imagem de   "negra brava" ["negra metida", grifo meu]. Essas falsas noções que alimentam a hipervisibilidade que as mulheres negras experimentam também criam a pré-condição para a invisibilidade, que é uma forma de exílio. As mulheres negras em sua individualidade são invisíveis precisamente porque são muito visíveis dentro do contexto branco da igreja evangélica ou multiétnica. Tudo o que é percebido sobre elas são as caracterizações fictícias projetadas em relação às suas personalidades.  
Uma maneira que isso se manifesta na igreja está na investida dos ensinamentos da masculinidade bíblica e da feminilidade. Esses ensinamentos são extra-bíblicos e centram-se nas normas brancas da classe média-alta, comunicando-se aos homens solteiros que eles devem procurar, desejar e perseguir uma esposa que incorpore as características de uma "mulher bíblica". Como consequência desse ensino legalista, as mulheres negras são implicitamente ensinadas a assimilar e aspirar à brancura. As mulheres negras dentro dos espaços das igrejas brancas e multiétnicas são sistematicamente eliminadas do rol de "casáveis", tornadas invisíveis por seus homólogos masculinos negros e não-negros porque não se encaixam no perfil branco e de classe média de uma "mulher bíblica".
A mente colonizada é um sinal revelador de que o discípulo urbano foi doutrinado com uma falsa teologia que deriva do Império em vez do Reino de Deus. A teologia do império é focada no temporal, sem consideração pelas coisas eternas, que não são vistas. Só serve ao interesse dos poderosos, mantém o status quo e perpetua a narrativa demoníaca da superioridade branca em relação àqueles que estão à margem. A teologia do império se mostra como um anjo de luz; Se mascara com um evangelho domesticado sem sacrifício, mas, interiormente, é um lobo voraz. Não exige nada de seus propagadores e tudo daqueles que estão à margem, a quem a teologia é dada. [A teologia do império] garante que o primeiro permaneça o primeiro e que o último permaneça o último.

Em contraste, a teologia do reino é governada por uma inversa inércia que mantém a eternidade em vista, onde o último é o primeiro (Mateus 20:16), os pobres em espírito e pobres no mundo são herdeiros do Reino (Mateus 5: 3; Tiago 2: 5), e todos, independentemente do status, cuidam do interesse dos outros (Filipenses 2: 4), amam o próximo como a si mesmos (Mt 22: 37-39), e amam Deus de corpo e alma através da habitação do Espírito que habilita os filhos e filhas do reino a matar o pecado (Mateus 22:37, Romanos 8:13, 12: 1). Consideremos Esther, que tinha uma escolha a fazer: ela continuaria "deixando pra lá", escondendo sua identidade étnica judaica para colher os benefícios terrenos da proximidade com Império e com o rei, ou abandonaria tudo, arriscando sua própria vida para revelar sua identidade étnica judaica,  e, assim, salvar seu povo do genocídio iminente? Através da providência de Deus e do ato de solidariedade de Esther com seu povo contra o Império, a trajetória da história redentora continuou sem cessar, dando lugar ao Rei dos Reis, ao advento de Jesus Cristo e à inauguração de Seu reino.

O QUE É A DESCOLONIZAÇÃO?

 "A descolonização é o encontro de duas forças, opostas umas às outras por sua própria natureza ..." o último será o primeiro e o primeiro, o último" (Fanon. p. 36, 37)
A descolonização é a prática desta frase. Assim como a colonização, a descolonização envolve dois aspectos no trabalho simultaneamente: a primeira é a descolonização da mente, que começa por questionar a questão colonial. O segundo aspecto é quando os nativos ativamente transformam a estrutura colonial, de modo que os nativos, uma vez colonizados, ganham sua independência.
Como mencionado anteriormente, a colonização é um processo violento, e o seu inverso, descolonização, é igualmente violento. As mentes dos nativos são colonizadas quando internalizam sua opressão, tornam-se auto-odiantes, acreditam que são inferiores ao colonizador e concordam com sua colonização, vendo-a como uma virtude em vez de vê-la como uma ilusão das profundezas do inferno . A antítese da mente colonizada é a mente descolonizada; O último é o lugar do nosso interesse. A descolonização da mente não é alcançada através da osmose. Não ocorre organicamente e não é passiva. A descolonização é sempre ativa, intencional e requer resistência contra a estrutura colonial de subjugação. A colonização - como qualquer outro pecado - não acaba com o tempo;

DISCIPULADO DESCOLONIZADO

A supremacia branca é um projeto global. Consequentemente, a América é uma nação supremacista branca como função dessa realidade; e isso significa que nós, pessoas de cor, tivemos nossas mentes colonizadas em graus variados. Através do nosso sistema educacional, seja privado, público ou escolar em casa; através da mídia, da doutrina e da iconografia nas igrejas, todos nós absorvemos uma mensagem de desdém pela nossa melanina, corpos e cultura. É por isso que a descolonização deve ser uma parte essencial do discipulado.

Podemos começar a descolonizar o nosso discipulado primeiro lembrando que o cristianismo é uma religião orientalPortanto, devemos ser intencionais sobre aprender sobre a história da igreja e como o evangelho criou raízes na África, Ásia e no Oriente Médio. Dolorosamente, é um fato pouco conhecido que a Igreja etíope  foi um ímpeto para a Reforma Protestante. [Também é importante] ler comentários bíblicos, livros, artigos e teologia escritos por mulheres e homens que são nativos e descendentes da África e do Oriente Médio, e que são a configuração histórica da Bíblia; homens e mulheres como Tokunboh Adeyemo, Mignon Jacobs e Judy Fentress Williams. Devemos também sentar-nos aos pés de nossos irmãos e irmãs asiáticos e latino-americanos, para que possamos alcançar a universalidade da igreja, que permanecerá fora do nosso alcance enquanto a mentalidade colonial persistir.

 Em segundo lugar, precisamos avaliar se a teologia que subscrevemos em nossas igrejas deriva do Reino ou do Império. Aqui estão algumas perguntas para se fazer: esta teologia me chama para um amor profundo por Deus que me faz perseguir a santidade e o amor radical para o meu próximo? Esta teologia beneficia os privilegiados à custa dos marginalizados? Esta teologia é uma boa notícia para todos, independentemente do seu status racial e socioeconômico? Essa teologia me faz olhar no espelho e me maravilhar com a obra de Deus em vez de desprezar meu reflexo? Quando eu fecho meus olhos e imagino Jesus, vejo um homem branco ou um palestino de pele marrom? Sua resposta a cada uma dessas questões indicará se você foi doutrinado pela teologia do Reino ou do Império.

Se tomarmos a colonização e a descolonização fora do campo da sociologia por um momento e pensarmos sobre eles em um sentido teológico, percebemos que todos nós fomos colonizados pelo pecado, sem exceção. Em Gênesis 3: 1, 4-5, vemos Satanás, o principal colonizador, enganar nossos primeiros pais, Adão e Eva. Em vez de pensar na vontade de Deus sobre eles, tomando domínio sobre a serpente (Gn 1: 26-28), Adão e Eva selaram sua colonização e a de sua posteridade quando comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal, mergulhando a todos nós em pecado, morte e miséria.
Quando pensamos nas consequências eternas de nossas transgressões (Romanos 6:23), vemos que a colonização pelo pecado é realmente violenta. A descolonização é igualmente violenta, e essa foi a violência visitada no corpo de Jesus Cristo que, por sua própria vontade, estabeleceu a Sua vida para que não estivéssemos colonizados pelo pecado. Toda laceração, tortura, contusão e corte da coroa de espinhos embutidos em Sua cabeça foram suportadas por Jesus para nossa salvação - ou nossa descolonização - se você assim quiser entender. O Espírito Santo continua o trabalho de descolonização dentro de nós, capacitando-nos a matar o pecado interior, enquanto estamos renovando nossas mentes e sendo conformes à imagem de Cristo.

De forma análoga, nós devemos nos dar conta da supremacia branca em nosso empenho no discipulado, para que o discípulo urbano seja cuidado no corpo e na alma. O discipulador deve instruir o discípulo urbano vendo-o como uma alma encarnada cuja vida foi comprada pelo trabalho acabado de nosso Salvador encarnado, Jesus Cristo. Não somos gnósticos. Um salvador desencarnado não é salvador. Nas palavras do teólogo africano, Atanásio, "O que não é assumido não é redimido". Nossos órgãos são importantes. Nosso cabelo é importante. Nossa complexidade importa. Nossas características faciais são importantes. Nossa fisiologia é importante porque Jesus Cristo uniu a humanidade com Sua divindade. Nossos corpos e almas refletem a imagem do encarnado que está intercedendo por nós agora. A descolonização é um processo ao longo da vida; a corrida não é dada ao mais veloz, mas a quem persevera até o fim.





Texto escrito por Ekemini Uwan (no Twitter: @sista.theology ).
Você pode conferir o original aqui.



A liberdade dói, mas faz voar



Há um capítulo do livro “Os irmãos Karamázov” de Dostoiévski chamado “O grande Inquisidor”, que na verdade é um poema narrativo do personagem Ivan, um dos irmãos Karamázov. A história contada a partir dessa narração traz Jesus  voltando a terra nos tempos da Inquisição, sendo capturado pelo Inquisidor, e questionado sobre o porquê  não ter aceitado a proposta de Satanás no deserto, visto que a sua mensagem não parece ter feito tanto sucesso quanto a mensagem da Igreja (na época, medieval e cometendo todas aquelas atrocidades em Seu nome). Conclui dizendo que o Cristianismo, no sentido de sistema de crenças (e por assim dizer, sem a essência que é o Cristo), cresceu no mundo porque vendeu a ideia de escravidão de mentes e não da liberdade pregada pelo Messias.

É mais fácil estar preso do que ser livre.

Durante toda a minha vida eu vivi com a sensação constante de segurança. Eu realmente achava que tinha todas as respostas, eu nunca questionei nada do que me diziam ser a “Vontade de Deus” ou a visão dEle para mim e para toda a humanidade. Confiava plenamente que minha forma de ver a  vida, as pessoas e o relacionamento com Deus era acabada, fechada em círculo. Não precisava saber de mais nada.
Na verdade eu não tinha consciência das coisas que cria porque não sabia das outras visões, do que as pessoas achavam deste ou daquele assunto. Eu não tinha ideia de que existiam outras formas de ver o mundo fora as minhas formas.

Não é de se espantar que minha reação diante de certos paradigmas dentro do Cristianismo tenha sido violenta. Lembro-me perfeitamente bem quando uma pessoa contou para mim que determinado “pecado” na verdade não era necessariamente pecado de acordo com a Palavra (mais tarde lendo eu entendi que realmente não era), mas dependia muito do que a pessoa faria com aquilo. Lembro-me da revolta, das palavras ditas: “mas por que não contaram isso pra gente antes?”; da sensação de casa demolida, de orfandade. Pela primeira vez na minha vida eu tinha saído da completa sensação de segurança com meu cristianismo.
E à medida em que fui crescendo e me encontrando com pessoas que tinham a mesma profissão de fé, mas criam de outra forma, ou com pessoas que nem criam em Cristo, comecei a questionar cirurgicamente tudo em que acreditava e o resultado depois de cada análise dentro das escrituras, confrontando a mim mesma era sempre o mesmo: minha casa estava edificada sob a areia.

Quando olhei para a pluralidade espantosa que existe dentro do Cristianismo e para a assombrosa característica de olhar o texto sagrado sob diversas perspectivas e o quanto que isso é vital nas milhares de denominações e confissões cristãs, meu mundo caiu. Percebi que há anos, centenas de anos e talvez em toda a nossa história como Igreja, a nossa religião tenha sido resumida em ler a Palavra sob o nosso olhar e não em ter a Palavra como algo que nos lê.

Desde criança eu havia edificado minha casa, meu relacionamento com Deus e com o outro a partir das perspectivas de um sistema teológico, eclesiástico, litúrgico, filosófico e cultural, mas não a partir das perspectivas dEle, puramente. Cresci em um berço evangélico protestante, e apesar de ter ouvido desde sempre sobre Jesus, Moisés, Maria e Abraão, eu não internalizava nada além das frases prontas de ebd: “Jesus me ama”; “Moisés abriu o mar vermelho”; “Maria deu à luz pelo Espírto Santo”; “Abraão foi o pai da fé”, o que elas significavam? Eu não sabia, apenas seguia repetindo as mesmas frases prontas, os mesmos clichês de pregação, as mesmas visões culturais sobre qualquer coisa fora da igreja como se estivessem escritas na Bíblia.

Hoje tenho 21 anos, mas carrego no peito a mesma sensação insegura de quem pisa na areia movediça cada vez que percebo o quão grande que é a vida, o quão particular que é o ser humano, o quanto que cada um de nós é diferente um do outro.
Isaías disse dentro de um contexto de ruína de Seu povo: “Confiai no Senhor perpetuamente; porque o Senhor Deus é uma rocha eterna"(Isaías 26:4); ele sabia que certamente nada era seguro o suficiente para o acolher a não ser a certeza inabalável que Ele não muda.

No livro “O sagrado e o profano” de Mircea Eliade há uma afirmação interessante sobre a visão de mundo do homem religioso: ele quer um lugar fixo no mundo (ontológico e físico) para se sentir seguro. Acredito que assim como em “O grande inquisidor” nós tenhamos aprendido fatalmente o caminho mais fácil: somos cristãos convertidos pelo medo de olhar para a Palavra e realmente enxergar o que ela tem a dizer a nosso respeito. Temos medo de admitir que não sabemos dar respostas a certas problematizações que nem a bíblia se interessou em apresentar. Temos medo de olhar para todas as confissões de fé em Cristo que diferem de nós em assuntos periféricos e tentar entender porque assim pensam ou, até mais, olhar para os que não creem e tentar entender (o que não quer dizer, necessariamente concordar com sua visão) o seu ponto de vista sobre determinados assuntos. Fomos criados no medo de questionar aquele(a) que nos diz o que é vontade de Deus, de questionar a nós mesmos diante de situações-limite, de questionar a nossa própria leitura da Palavra.

O medo sempre fora o caminho mais fácil para a nossa religião, mesmo que isso significasse prisão, porque estar verdadeiramente livre na Verdade implica em carregar a cruz e seguir os passos de Cristo e nem sempre há tanta segurança em nós mesmos ou quem somos. Ser livre, por esta razão, é um estado de pura insegurança nos seus próprios conceitos de teologia, cultura, filosofia e ciência e completa entrega ao que Ele diz (ou ás vezes nem diz) sobre a angústia que é existir num mundo caído. Sabe o que isso pode nos dizer? Que tudo bem se você enquanto cristão diz que é “golpe” ou “impeachment” o que aconteceu com Dilma, não é isso que me modela como seu irmão e nem que desmancha o que Cristo fez por nós.

Se Mircea Eliade afirma em sua obra que a visão religiosa se constrói a partir do desejo do homem religioso estar sempre e constantemente seguro em um mundo cada vez mais relativista, eu prefiro não ser religiosa nesse sentido e abraçar a cruz, o que significa dizer que minhas verdades sobre a vida podem ser demolidas a qualquer momento, contanto que Ele diga sempre a Palavra final porque sei que o Senhor é a nossa Rocha Eterna e que um dia não precisaremos mais pisar em areias movediças.




Quando estar certo não é tão importante assim


Nesses dias em que mais parece que o chão tornou-se mina, onde assuntos ferem, dividem e segregam; onde, em nome da verdade, se endossa uma espécie de "nós contra eles", fica cada vez mais difícil respirar e silenciar.
As redes sociais, grande tema de estudos sociológicos, teses acadêmicas e até roteiros cinematográficos, são as grandes potencializadoras de nossas guerras e nunca em nenhuma era houve tanta necessidade de se pronunciar em nome de um "lado", seja em vídeos de youtubers, comentários de instagram ou textões de facebook. O teclado do meu smarthphone é o novo palco onde eu vomito minha opinião, não com o intuito de amadurecer algum debate, mas de aumentar a visibilidade para as bandeiras que levanto e arrancar aplausos de quem concorda comigo.  É o vício do espetáculo de mim mesmo. Obviamente não gostamos de ser contrariados e esse comportamento egocêntrico, de fato, nos define desde que nos entendemos por gente. A grande questão é que em nossa era, a angústia cresce enquanto nos sufocamos de informações porque agora estamos diante do espelho de quem somos e não há alívio pra autoconsciência. O espelho não mostra tanta beleza. 
O ódio despejado em forma de opinião, os vídeos de estupros coletivos sendo compartilhados, a vida sendo banalizada com aplausos, a guerra declarada contra o mal, que incrivelmente parece apenas morar no outro... Tudo isso é o reflexo do que sempre fomos. Autoconsciência em transe, agudez de olhar fixamente para a feiúra... Sintomas de pânico, ansiedade, comprimidos como amortecedores que nem os antídotos "milagrosos" de Huxley em Admirável Mundo Novo
A vontade de se impor, de alcançar o status de portador da razão, de intermediar conflitos ao mesmo tempo em que inconscientemente admite-se como o "lado do bem" nos define e nos angustia profundamente porque a contradição esmaga nosso ego. 
Não importa contra quem minha opinião é destinada, não importa se é alguém que eu amo, se é alguém que me amamentou, se é alguém que morreria por mim... Importa estar certo. Importa entender que enquanto o outro discordar de mim, ele é meu inimigo. A que ponto se chega em nome da razão? Ao ponto de destruirmos relações, porque a vida tem de ser teorizada, debatida, problematizada... Tudo, menos vivida. 
No jardim do Éden, Adão e Eva não foram privados da Eternidade simbolizada pela árvore da vida apenas como punição pelo erro, mas também por misericórdia, visto que viver eternamente com a maldade seria insuportável. O mal que habita no interior de cada pessoa é sufocante; e se perpetuado, seria impossível conservar a consciência de humanidade; talvez o que estejamos vivendo hoje seja, virtualmente, no sentido mais epistemológico da palavra, a  sensação de "eternidade" rodada em telas, em mídia, em teclados, em relações doentes... A eternidade do mal que não está no outro, mas em mim mesmo. E por isso é tão asfixiante viver. 

Não tenho as respostas para nossos dilemas e talvez seja contraditório tentar achar uma saída para essa angústia, mas talvez nosso corpo, nossa mente, nossa consciência estejam gritando por silêncio, tal qual o silêncio da morte interrompeu a perpetuação do mal no Éden. Em meio a tantos gritos, tantas reações, opiniões e cantos de guerra, manter a sanidade talvez possa significar admitir as próprias contradições e tentar respirar na quietude.

Eu amo vocês, meninos? - Reflexões sobre o Perdão como marca da Graça

Um episódio ruim que me aconteceu estranhamente me lembrou do meu Pai e do quanto que Ele me ama.
Fui assaltada por um rapaz visivelmente menor de idade, acompanhado de outro mais velho e eles me roubaram o celular apenas com o terror das palavras. Não teve revólver na minha cabeça, mas eu segui o conselho de minha mãe de nunca resistir a um assalto, afinal, a vida é mais importante. De qualquer forma eu não estava em condições psicológicas de raciocinar sobre a probabilidade deles estarem armados... Eu só queria me livrar daqueles dois seres que eu nunca tinha visto na vida e ir em paz para um lugar seguro. 
Eles foram embora e ficou em mim a mescla entre me sentir lesada de um bem que eu mesmo tinha comprado com sacrifício e a raiva por ter “errado” ao ficar tão exposta em um lugar em que eu pensava estar a salvo. 
Estranhamente, a face de quem sou fora mostrada ali naquele episódio: a vontade de me vingar, de ver os dois rapazes apodrecendo numa cadeia ou de recorrer à violência facilmente foram expostas como primeira reação, e, de alguma forma eu não estaria errada em assim o desejar. 
Mas aí comecei a pensar... 
Quem eram? Será que tinham família? E se tinham, como era a relação afetiva entre eles? Será que receberam amor? Será que tinham expectativas de vida? Por que resolveram entrar para o crime? Como eles conseguiram ver com tanta normalidade lesar alguém e dormir? Será que sentiam o peso da consciência ainda ou a maldade os tomou e levou qualquer rastro de inocência, mesmo com pouca idade?
Essas perguntas, de uma hora pra outra, desconstruíram toda a figura detestável que fiz deles, porque quando se distancia do seu inimigo, têm-se mais motivos para odiá-lo. De forma alguma justifico suas ações, e desejo muito que um dia venham a pagar por seus crimes, mas passando por esta experiência enxerguei quem sou, e quem eles eram para Deus.
É escandaloso demais pensar que a Imagem de Deus, mesmo que manchada pelo pecado, ainda estava neles e que na minha melhor postura moral eu sou vista por Deus como vejo a eles?
Quando comecei a entender isso, percebi o que é o Amor do meu Pai. O Deus Santo e Justo ama profundamente aqueles rapazes delinquentes cuja existência nem sei a que fim levará. Ama tão profundamente que crucificou sua carne, foi cuspido, desceu de Sua glória para que, no fim, visse a violência sendo escancarada em ações de delito. Que amor é esse? 
A base de nosso relacionamento com o outro não se dá a partir das ações e reações entre nós e isso quer dizer que provavelmente eu não posso pisar no pé da pessoa que pisar no meu como resposta. A base de nosso relacionamento com o outro, portanto, não é algo meritocrático – e no ponto de vista de muitos, justo – mas misericordioso porque se baseia no nosso relacionamento com Ele.
Toda a ação de alguém que se entendeu como filho desse Pai amoroso fatalmente tende a ser de imitação. Nada que façamos poderá estar de forma divergente do comportamento do Pai para conosco; se eu fui amada, tenho que amar, se eu fui suprida, tenho que suprir, se eu fui tratada pela sua Justiça, tenho de ser justa e se eu fui perdoada, tenho de perdoar. 
A grande complexidade do caso é que a relação de Deus não se baseia nos méritos de quem sou, diferente do tipo de relação que tenho com os outros; até porque, para Ele, eu estou no mesmo patamar moral dos meninos que praticaram violência comigo. A relação de Deus para comigo existe mesmo que eu não mereça seu amor; mesmo que os desejos em mim agridam Sua santidade; mesmo que em minha carne eu escolha O odiar por minhas atitudes. 
“Onde abundou o pecado, superabundou a graça”.
Quanto mais sujo eu sou e alguém me ama, apesar de mim, mais eu percebo o quanto sou amado. 
Eu sou amada por Ele.
Vocês são amados por Ele, meninos.
Mas qual será a minha resposta quando me vejo diante da interrogação que me machuca e definitivamente põe em xeque se realmente sou Filha dEle?
Será que eu amo vocês também, meninos?

Aonde foram parar nossas histórias?

Como uma amiga não tão bem-vinda, vizinha de nossas almas, a morte vem sutilmente nos lembrar de certezas dolorosas. 
A gente passa a vida toda fugindo dessas certezas, constrói castelos, monta em cavalos, porta espadas e cria batalhas para ao fim do dia ter histórias para contar. Heróicas sagas. Nossas histórias incham, incham até tornarem-se maiores do que nós mesmos... Ao menos é o que desejamos.
Mas assim que o dia dorme e a cabeça encontra o descanso do travesseiro, a consciência nos pergunta quem nós somos. O fim do dia é o microcosmo do fim da vida, e quando ela chega, aonde vão parar nossas histórias?

Alguém hoje morreu, alguém amanhã irá morrer... Aonde então foram parar nossas histórias? De que forma ainda conseguiremos sustentar nossa farsa existencial diante das certezas dolorosas que tanto fugimos?

A morte enfia uma espada no peito da gente enquanto sussurra delicadamente as verdades eternas no ouvido. Verdades que destróem os castelos, os cavalos, as espadas, as batalhas vencidas... Verdades que nos guiam até o espelho de quem somos e nos mostram que nossa imagem é fragmentada, embaçada, confusa... Transitória. E que tudo o que vive, morre.

A morte hoje me cantou mais uma de suas canções, me mostrou mais uma de suas danças e eu, trêmula e em profundo ato de reverência, abaixei a cabeça e pensei na vida. 

Devagar



Nasci entre a urgência de existir 
e a esperança de olhar a vida pela janela
Do morro recifense pendurado por fios elétricos
cercado de casinhas, escadas, calor humano e cheiro de fumaça de ônibus,
com a vida dentro do outro
e a música do vizinho dentro do compasso do meu coração pequeno,

Me vi ilhada em outro chão
mais calmo
mais largo
mais 
len
ta 
men
te
cidade pequena

Aqui as gentes andam como se nunca fossem morrer um dia
saúdam uns aos outros como crentes de igreja;
ouvi hoje à tarde um homem fazendo corrida gritando pra dona da macaxeira
que ela haveria de ser vereadora
a mulher respondeu com uma gargalhada
gritando como se estivesse entre gente de casa
e estava.

Aqui a voz é mole, escorrega preguiçosa à altura que o sol vai dormindo:
pouco a pouco.
O cheiro de café, como a lua, anuncia a noite
e com ela a pequenez da vida
que combina
com a pequenez de minha cidadezinha
onde o coração bate devagar
como que iludindo a gente 
de que, talvez
a morte não exista.