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A gente não é suficiente


Nascer sob dor
rir com dentes de leite
pra vê-los caindo 
enquanto a velhice aproxima 
teu abraço 
à terra

Rir de chorar 
até as lágrimas salgadas
fazerem tua boca beber
e sentir o mesmo gosto
de quando há tristeza

Aquecer-se 
com o fogo das palavras
para depois queimar-se 
com o mau uso delas

E, enfim, 
ao fim
vomitá-las 
quando não se consegue dizer o que sente

É tudo ciclo
Tudo sempre volta
retorna

E a gente,
nessa estrada viciosa,
demora pra perceber, 
que não é suficiente


LER AO SOM DE: FANTASMA - SIMONAMI



Uma casa em construção - Reflexões sobre Graça e Religiosidade

   
                    
Tenho refletido muito sobre minha vida nos últimos meses. Na verdade, mais sobre minha vida como cristã. Terminei de ler Como os pinguins me ajudaram a entender Deus do Donald Miller e, apesar de ter feito Ooh com algumas passagens liberais do Don(eu não sou liberal), aprendi muito sobre o que pode ser, de fato, um relacionamento com Deus. (Ainda estou lendo O Evangelho Maltrapilho  do Brennan Maning que é incrível também). 
Se você, como eu, cresceu na igreja, dentro de uma religião, pode tomar dois caminhos ao se deparar com a realidade do mundo e das pessoas: 1. você desacredita de tudo, se revolta contra todo o sistema religioso e vira um quase-ateu/agnóstico; 2. você questiona tudo o que foi lhe entregue como verdade, retém o que é, de fato, bíblico e verdadeiro e se reafirma na fé, procurando uma forma mais pura de se relacionar com Deus. Acho que graças a Ele, tomei a segunda alternativa quando entrei na universidade. A universidade é um lugar muito amplo, um verdadeiro mundo de pessoas, de ideologias, de comportamentos; é natural, no começo você se chocar com a infinidade de pessoas diferentes e ter o desafio de conviver com elas. É lá que você aprende a questionar tudo o que acredita e esse é um processo doloroso e difícil.
Passei por um momento em que simplesmente não entendia o porquê que ia à igreja, fazia atividades relacionadas à organização litúrgica, e, principalmente, o porquê que acreditava em Deus. Eu acreditava de verdade em Deus? Ou apenas estava continuando o legado da minha família, do meu grupo de amigos, das pessoas ao meu redor? Será que eu conhecia a Ele, ou tudo não passava de um piloto automático? 
Eu sei que assumir esses questionamentos implica, talvez, em um reconhecimento de fraqueza e acho que a maioria da comunidade cristã tem dificuldade em se entender como fraca, joelhos vacilantes, dependente de respostas como todo mundo (sinceramente é uma coisa que não entendo em nós, já que na bíblia há vários relatos de pessoas se reconhecendo como fracas e entendendo sua fortaleza como vinda de Deus).
Comecei a orar e a pedir a Deus um direcionamento específico sobre o que estava fazendo da minha vida, sobre como tê-Lo comigo sem ser um conceito pronto, mas como Deus pessoal... E, principalmente, como fazer dessa mudança interna uma forma de externalização em todas as áreas. Foi e continua sendo um processo. Deus começou a se mostrar a mim em lugares para fora de minha caixa, O vi na vida, na natureza, nas pessoas, O enxerguei na complexidade de toda a arquitetura humana e cósmica, não vi alternativa mais lógica do que percebê-lo em tudo. Está sendo incrível essa minha experiência.
Me identifiquei muito com o Donald Miller principalmente quando ele questiona a falta de amor em nós, como igreja, a falta de empatia com as pessoas, a falta de flexibilidade no contato com gente que vive estilos de vida contrários ao que acreditamos. Tudo isso gira em torno de uma constatação que chegamos, mesmo que inconscientes. Constatação que nos diz que, porque fomos alcançados pela graça de Deus, conseguimos chegar à um patamar mais alto onde nós somos os sem pecado, santos e inalcançáveis e eles os pecadores, sujos e indignos de sentarem conosco à mesa, compartilharem do mesmo Pão e jogarem conversa fora. A primeira coisa que entendo ao ler a Palavra de Deus é que não existem mais elites espirituais. A salvação vem de Deus e somente dEle, e nós, por nós mesmos, não podemos nos autojustificar de nossas ações, nos salvar de nossos pecados. O processo de arrependimento é promovido por Ele, o processo de convencimento de pecado é feito por Ele, o processo de limpeza é produzido por Ele, e todos esses processos, depois do sacrifício de Jesus são eternos e novos!
Como algo pode ser eterno e ao mesmo tempo novo? Quando somos salvos, nada pode nos separar dEle, isso é algo que nos garante a eternidade. A eternidade do sacrifício da cruz. Mas uma das coisas mais lindas é que essa aliança é nova! Ela se renova a cada dia, porque todos os dias as misericórdias do Senhor se derramam sobre nós, e todos os dias, Ele nos convence dos erros e nos perdoa quando nos arrependemos. Isso é lindo! Não estamos à salvo dos erros, não estamos em um patamar mais alto. A Graça, como disse o Donald, é um reino de mendigos. Somos mendigos, em um mundo de mendigos, apontando o caminho onde encontramos o Pão gratuito para outros mendigos. 
Mas ao contrário de tudo isso, nossa religião, nossas igrejas como instituições, nossas denominações são muito altas, muito santas, muito "puras" para a entrada e contato com pecadores. Ninguém se sente bem em um lugar onde, ao invés da explanação do Evangelho, só se percebe olhares julgadores, narizes em pé, dedos em riste, pregações que usam do medo humano e não do temor da Palavra. Ninguém quer entrar nesse lugar que se diz casa de Deus. Ninguém se sente à vontade perto de "representantes do Senhor" que não sorriem, que não abraçam, que têm nojo de estarem perto, que não respeitam quem pensa contrário e não batem o pó das sandálias porque não querem obrigar ninguém, como faria o próprio Cristo. Todos se sentem muito intimidados perto de nós porque, infelizmente, nosso histórico nos últimos anos (com exceções, claro) é de afastar pessoas de Deus e não de levá-lo para fora de nossas paredes. 
Jesus é maravilhoso. Não tenho outra definição para descrevê-lo! Ele não apenas sentava com pecadores, mas comia com eles, isso naquela época significava o estágio maior de intimidade. Será que temos noção disso? Jesus, o único que poderia dizer-se acima de todos, ria com eles, comia, se importava... O que tinha direito de julgá-las, o que tinha direito de não ficar perto, foi o que se aproximou, se preocupou. Amou. É completamente arrebatador pensar que o Deus do universo preferiu descer de toda a Sua glória e todo o seu direito nos condenar, para vir em forma de homem pobre, em uma cidade miserável, sem nenhum traço de beleza física, sentar com pessoas como nós, imundas, falar a respeito do quanto Ele podia nos libertar do abandono eterno e nos perdoar de todas as nossas falhas, enquanto comia na mesma mesa.

Foi isso que Ele fez por nós.

Seria isso que Ele faria se estivesse em carne e osso entre nós.

Eu oro para que um dia nós percebamos que a vida com Deus é mais do que nossos rituais, nossos dias de domingo, nossos departamentos de igreja, nosso evangeliquês. Eu oro para que entendamos que nós somos a igreja, o lugar onde a essência de Deus deve ser transbordada em retidão, justiça, amor... Eu oro para que não haja negação de compartilhar o Pão e sentar à mesa com os mendigos esfomeados, mas sim a atitude de tê-los para sempre perto, de criar laços de amizade, de abraçá-los quando precisarem, sem interesse, sem julgamento, apenas esperando que o Pai faça o trabalho dEle, entendendo que também somos mendigos. Mendigos que comem à mesa com um Rei que ama.

Eu oro para que nós, como casa de Deus, aprendamos a abrir nossas portas e janelas para que o mundo seja revolucionado por Ele, um Ser tão supremo e grande, mas que habita em templos humildes, em templos pobres, em templos que ainda estão em obra porque um dia serão a perfeição. 

LER AO SOM DE: CASA - PALAVRANTIGA

Irmãos


Nós, irmãos humanos, somos como árvores. 
Porque, por mais que ventos venham, 
por mais que frutos apodreçam,
nossas raízes nos fincam no mesmo lugar.  
Que tédio é a nossa vida de árvore fincada! 
É tristeza daquela endurecida depois do cansaço de ter sido par de olhos chuvosos a vida inteira
Nós, irmãos de história, somos como árvores! 
Temos os ramos frágeis, 
as folhas bipolares em seus humores,
mas continuamos. 
Continuamos assim mesmo, sem complemento pra encher a frase. 
Nós, irmãos de maldade, somos como árvores!
Nós temos a ruindade dentro de nós, 
nos apodrecendo todo dia, 
nos aproximando, como abraço, da terra em que nascemos. 
De nós saem frutos que adoçam a boca das crianças, 
de nós saem venenos que nos suicidam. 
Nós somos um amontoado de pecados. 
Nós, irmãos sofredores, somos como árvores! 
Nossas lágrimas enchem mares, nossos mares de sal, tratam as nossas próprias feridas. 
Fazemos sombras de tristeza sobre nossos ombros cansados.

Sobre toda a sequidão de nossa angústia, 
sobre todo o azedume de nossa maldade, 
sobre toda a perpetuação de nossa fortaleza, 
brindemos, irmãos!
Porque as estações vêm, 
os frutos apodrecem, 
os ventos violentam, 
o tédio entristece,
e mesmo que o machado nos sangre e nos faça, em choro e riso, abraçarmos, de saudade, a terra
nossas raízes, enfim, permanecem.
Resistem.
Continuam.




O que não é bonito



Ah, pessoal! Pobreza é coisa bonita. 
Achou estranho? Pois é. 
A pobreza é bonita porque o poder é do povo. 
Porque a voz do povo é a voz de Deus. 
O povo, o povo, o povo...
Isso tudo é bonito. 
É bonito dizer que mais vale ter sorriso na cara do que dinheiro no bolso...
Bonito quando se tem dinheiro no bolso e um prato cheio, enquanto assiste sua série de TV paga. 
Pobreza de espírito é coisa feia
pobreza de dinheiro sugere riqueza espiritual... Riqueza espiritual com estômago roncando. 

Não a pobreza não é massa de fazer pizza
que a gente pega, molda e come como perfeição. 
A pobreza é choro
a pobreza é preocupação
a pobreza é dor. 

Mas não
isso tudo virou base para pensadores
inspiração para artistas
aula para professores
manobra para políticos
assunto pra cursinho pré vestibular

O que é bonito, minha gente
o que é, indiscutivelmente, bonito
é sonhar com um mundo de flores, 
flores de todas os tamanhos e cores
sonhos de todas as padarias e confeitarias 
tudo isso com barriga cheia
e teto sobre a cabeça


Figura de linguagem


Olha lá o céu, Joãozinho. 
Tá vendo? Aquela nuvem parece um elefante
daqueles bem gordinhos.
Olha! Ele tá chutando alguma coisa. 

Ah, Joãozinho, o céu é o mesmo, sabia?
É desse mesmo céu que, nos dias de chuva, 
saem aqueles trovões e relâmpagos que você tem medo

Quando isso acontece você corre pra minha cama
me abraça e eu canto alguma canção de igreja pra você dormir

No outro dia você pousa de homenzarrão, 
não quer que eu fale pra os seus amigos
que você ainda assiste desenho 
que tem medo de mertiolate...

Eu fico sorrindo. 

Joãozinho, 
esse mesmo céu é o que escurece à noite.
À noite quando o vento é mais frio e você dorme mais cedo
querendo que o outro dia comece
porque você odeia escuro
porque você é mais feliz com sol nos ombros e olhos

Ah, Joãozinho... Se eu te dissesse! 
Se eu te dissesse que esse céu bonito é o mesmo
o mesmo dos teus medos, o mesmo das tuas neuras...
Você, então, perceberia
que tudo depende de como você vê o dia
de como você pinta a vida

O céu é o mesmo, meu filho
a vida sempre vai continuar 
e a gente sempre vai ter a escolha 
de usar guarda-chuvas, 
de desenhar nuvens no chão, 
de fazer música com som de trovão,
e de viver com o sol dentro da gente.


DICA DE MÚSICA: BEN - RUBEL



Conselho de mãe


A vida lá fora tá bonita, menina
o céu tá da cor dos olhos do Hugh Laurie
Não é você que adora aquela série dele de doutor?
Pois bem, falei isso pra ver se te anima. 

A vida lá fora tá bonita, menina
tem um bocado de gente escutando música boa
debaixo daquelas árvores que parecem ter braços
Pois bem, falei isso pra ver se te anima. 

A vida lá fora tá bonita, menina
Deus abençoou a gente com um sol de cinema
o vento está tão forte que dá pra andar 
com os cabelos voando

Falei isso pra ver se te anima
pra ver se você tira a cara desse computador
pra ver se você percebe
que o tempo passa
as coisas são findas
e o que é infinito,
morre a cada ausência tua. 

Chiaroscuro


Dez horas da noite em uma cidade pequena, em plena copa do mundo. Tem um jogão acontecendo na pequena tv do bar, mas há poucas pessoas assistindo, entre bêbados e mulheres fumantes. A rua, sobrevivente de uma chuva forte, escorre sua lama de esgoto pelos poros não corrigidos pela prefeitura, e eu piso numa dessas poças. 
As bandeirinhas verde e amarelas, pobres bandeirinhas molhadas, vistas sob esse aspecto não são tão brilhantes e alegres como nos comerciais de cerveja. Minha rua continua a mesma. 
Há uma flâmula do Brasil já desgastada, sendo agitada pelo vento frio. Eu tomo a chuva na alma e aquilo me limpa de tal forma que vejo tudo claro, apesar da aparente sujeira. 
Marcam um gol, acho que foi alguma seleção do leste europeu, um bêbado se levanta e comemora, esmurrando o ar com certa raiva. Eu sorrio. 
Amanhã me acordarei no mesmo horário, amanhã comerei no mesmo horário, amanhã gastarei mais um dia, e amanhã tem jogo.
Amanhã alguém morrerá, amanhã alguém protestará e será reprimido, amanhã a mídia não vai falar de outra coisa a não ser o novo corte do jogador tal, amanhã alguém nascerá, amanhã alguém chorará, sorrirá, cantará, fará aniversário...
Amanhã essa minha rua vai receber nas suas poças de água suja a cristalização do sol e esse pobre bar ficará com o reboco desgastado pela chuva. Gritarão gol com sorrisos cheios de dentes e bafos de cachaça, se abraçarão suados, dizendo que a vida é bonita, no paradoxo cenário de rotina miserável. 

Quase um retrato


Tudo o que eu sei é que se esbarraram no meio da avenida, num dia claro de Abril, olharam-se por 3 segundos, continuaram suas vidas. 

Ele, um jovem negro, com a testa suada, uns óculos vencidos e olhos baixos, como se fosse daquele tipo de gente que sempre pede desculpa. 
O outro, senhor de idade, com a pele bronzeada pelo sol, camisa de botão aberta mostrando os pelos, tinha as mãos sujas de cimento e uma cara de cabra da peste.

Não me atrevo a dizer os seus nomes. 

Tudo o que eu sei é que se olharam como se dissessem: "Ei, vamos trocar de vida?" 

Ah! Como o mundo é pequeno para os de coração cansado!



LER AO SOM DE: MASCARADOS - RUBEL

A menina


Coitada da menina tímida, ninguém olha para ela. Ela não recebe os abraços, os sorrisos, os acenos... Ela permanece ali, quietinha, com olhos nervosos fixos em qualquer lugar. 
Coitada da menina tímida que escuta uma piada boa, mas não tem coragem de sorrir, que vê alguém falando sobre sua banda preferida e morre por dentro por não conseguir dizer que também gosta.
Coitada da menina tímida que sabe fazer as melhores caretas na frente do espelho, que imita a voz da Britney perfeitamente bem, que tem a melhor coleção de cartões telefônicos do mundo... Coitada da menina tímida que tem uma risada estranha e alta que até chega a doer os ouvidos. 
Coitada da menina tímida que tem dentes tortos, mas um incrível sorriso, que em todo o tempo parece carregar uns olhos penetradores de alma. 
Coitada da menina que trocaria o dia agitado de hoje por uma cachoeira em cima de seus ombros, que agora está com os olhos maiores, mais sugadores de tudo. 

Mas para todos ela continua sendo a mesma menina tímida dos olhos assustados e da voz baixa. 
Para todos ela continua sendo a quieta e alheia ao mundo. 

Coitada da menina tímida, ninguém perguntou como foi seu dia. 
Coitada da menina tímida!

LER AO SOM DE: NÃO MAIS - SIMONAMI

Nickname


Click.

A página do navegador abre. Google. "Você quis dizer: Salas de bate-papo?". Nem prestara atenção, tinha escrito salas de "ate-papo". Abre a janela, cria um nickname, digita o que consegue ver dos códigos apresentados pelo site. Entra. 

Há muitos nomes obscenos. Há nomes infantis. Ela clica num tal de "HomemMaduro", mas não digita nada; "acho que esse 'maduro' quer dizer um velho de sessenta anos coçando a bariga na frente do pc". Fecha a conversa. 

Alguns começam a lhe enviar maliciosas abordagens, ela não os responde. Outros lançam convites pra salas reservadas sem nenhuma preliminar de saudação... Ela revira os olhos.
Um internauta chamado "SolitárioEmUmaGrandeCidade" lhe desperta atenção pelo nome. Ela digita sem pensamento prévio a sua angústia diante da sinceridade do tal homem. 


Ternura30: Seu nome é um tanto deprimente.

SolitárioEmUmaGrandeCidade: É porque talvez eu o seja, rs. 

Ternura30: Duvido, rs. Você está tentando produzir uma espécie de piedade coletiva para si nessa sala. É óbvio.

SolitárioEmUmaGrandeCidade: Na verdade, me pareceu o mais sincero de todos aqui.

Ternura30: Eu devia ter adivinhado: você é mais um daqueles homens que sentem prazer em serem vítimas da vida. 

SolitárioEmUmaGrandeCidade: Você vem sempre aqui?

Ternura30: Não tanto, mas, geralmente, venho para fugir do trabalho. (Sua pergunta pareceu uma cantada péssima rs)

SolitárioEmUmaGrandeCidade: Então você é igual a mim. 

Ternura30: Hahahaha, não sou uma maníaca-depressiva que se abre para estranhos. A vida é difícil, mas a gente tem que enfrentá-la. (momentoFrasesDeAutoAjuda rsrs)

SolitárioEmUmaGrandeCidade: Bom, vc está mais sozinha do que imagina e parece não viver o que prega. 

Ternura30: Ah, tá. Ok -.- (Vc tem perfil de quem lê Augusto Cury, mas não segue as instruções de como sair de uma fossa rsrs)

SolitárioEmUmaGrandeCidade: É sério. A gente vem aqui porque, geralmente, a vida não está tão interessante. 

Ternura30: No meu caso é só tédio -.-

SolitárioEmUmaGrandeCidade: Vc realmente faz a mesma coisa que eu, moça piadista.



Você foge.

Não gosta do rumo que a conversa toma. Fecha a janela. Desconecta o bate-papo, reabre uma outra aba por pura mania de fazer isso. Encosta-se na cadeira e toma um gole de café. Põe um olhar de pedra no fundo da xícara, na escuridão de sua bebida.

Olha ao redor. Alguns quadros tortos na parede, uma moça deixando aparecer a alça do sutiã enquanto estica o braço ao chão em busca do celular caído. Há um vaivém contínuo, muitas pessoas na seção dos lançamentos, alguns casais - sempre existem os casais de filmes água-com-açúcar - na seção romântica, um velho que disfarça para entrar na sala secreta de filmes adultos...

Há os alto-falantes na frente da locadora gritando jingles de farmácias, uns garotinhos vidrados com o banner do Homem de Ferro...

Ela sacode os ombros para espantar uma tristeza repentina.

Sente-se completa e terrivelmente só.

Tira do bolso seu celular e se ocupa dando comida ao seu bichinho de estimação; um aplicativo bobo que inventaram.



LER AO SOM DE: REALIDADE VIRTUAL - ENGENHEIROS DO HAWAII 

Esperemos


Maturidade é uma palavra bonita. Acho bonita porque me lembra fruta madura, e fruta madura me lembra sabor bom. Mas maturidade também me lembra um velho funcionário público, um pouco desgostoso com a vida, porém com aquele desdém que existe quando a gente se acostuma com as coisas. E isso não me parece legal. 
O sonho de todo mundo é crescer. Meninas, quando crianças, brincam de bonecas e de comidinhas para sentirem-se um pouco maiores do que são; garotos, por outro lado, desenham bigodes em suas bochechas e em cima dos lábios para ostentarem masculinidade precoce. 
Mas um dia todo mundo definitivamente chega àquela idade convencional da maturidade - que pode ser algo relativo - e percebe que não cresceu o suficiente, que talvez esteja sofrendo de um problema de ossos e se vê desesperado diante do batalhão de super-humanos adultos com suas vidas de adultos perfeitas.
A gente acaba correndo no fluxo que predestinaram; arrumamos um emprego, temos filhos, casamos, pagamos um bom plano de saúde (porque o sistema de saúde pública é precário, dizem meus pais e professores barbudos) até que a gente pensa estar crescido e pronto. 
Pronto para quê? 
Vejo-me com um escudo, toda equipada e preparada para as guerras que me falaram. Estou atenta à todos os sons, todos os sussurros, e a qualquer alarde posso atacar e mostrar que sou completamente independente. 
"A vida é dura, você tem que estar pronto", "Cresça", "O mundo é dos fortes", "Amadureça"... Penso em todos esses conselhos, e já me enxergo com meus quarenta anos, me desarmando das guerras diárias, tirando meu escudo pesado, meus sapatos, sentada na cama com os olhos fitos no relógio, que denuncia ser fim de dia. Ainda sou eu. 
Ainda sou a menina que um dia escreveu ter medo de crescer, porque acho que mesmo com todo o conjunto de armas que tenho para enfrentar tudo, sofro com os ossos, com a altura espiritual e emocional desequilibrada diante do meu período convencional de maturidade. 
Ainda acho a palavra bonita, confesso. Acho que vai chegar o tempo em que me adequarei melhor ao conceito. Talvez realmente exista e não seja esse bicho de sete cabeças que as pessoas têm medo. Talvez a sensação de ser um gigante seja bem legal e leve. 
Esperemos. 
A palavra é bonita, então... Esperemos.

Poema da hipocrisia


Eu cansei de me comover com a dor
cansei de ter vontade de ajudar os pobres
cansei de querer ser rica para me doar
toda. 
Exclusiva.
Essencialmente.
Cansei de protestar com cliques
cansei de protestar com gritos
ou com cartazes
com petições, orações e até coragem.
Eu cansei de depois de algum prato de comida, 
perceber que roubei aquilo de alguém.
Cansei de me arrepender por estar feliz, 
mesmo não devendo nada a ninguém.
Cansei de dar um sorriso amoroso
para aquela mãe de família 
com roupa suja e sete filhos, 
como se o gesto a fosse salvar
da fome, do frio e perigo. 
Eu cansei de dar-lhes algumas lágrimas
diante das confissões de suas vidas
e em pouco tempo aquilo ser 
como uma velha canção esquecida. 
Cansei de me comover, protestar, me arrepender, chorar...
E no fim, 
como uma criança mimada, 
perceber que fiz de tudo, 
de tudo,
e não fiz nada.