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Irmãos


Nós, irmãos humanos, somos como árvores. 
Porque, por mais que ventos venham, 
por mais que frutos apodreçam,
nossas raízes nos fincam no mesmo lugar.  
Que tédio é a nossa vida de árvore fincada! 
É tristeza daquela endurecida depois do cansaço de ter sido par de olhos chuvosos a vida inteira
Nós, irmãos de história, somos como árvores! 
Temos os ramos frágeis, 
as folhas bipolares em seus humores,
mas continuamos. 
Continuamos assim mesmo, sem complemento pra encher a frase. 
Nós, irmãos de maldade, somos como árvores!
Nós temos a ruindade dentro de nós, 
nos apodrecendo todo dia, 
nos aproximando, como abraço, da terra em que nascemos. 
De nós saem frutos que adoçam a boca das crianças, 
de nós saem venenos que nos suicidam. 
Nós somos um amontoado de pecados. 
Nós, irmãos sofredores, somos como árvores! 
Nossas lágrimas enchem mares, nossos mares de sal, tratam as nossas próprias feridas. 
Fazemos sombras de tristeza sobre nossos ombros cansados.

Sobre toda a sequidão de nossa angústia, 
sobre todo o azedume de nossa maldade, 
sobre toda a perpetuação de nossa fortaleza, 
brindemos, irmãos!
Porque as estações vêm, 
os frutos apodrecem, 
os ventos violentam, 
o tédio entristece,
e mesmo que o machado nos sangre e nos faça, em choro e riso, abraçarmos, de saudade, a terra
nossas raízes, enfim, permanecem.
Resistem.
Continuam.




O que não é bonito



Ah, pessoal! Pobreza é coisa bonita. 
Achou estranho? Pois é. 
A pobreza é bonita porque o poder é do povo. 
Porque a voz do povo é a voz de Deus. 
O povo, o povo, o povo...
Isso tudo é bonito. 
É bonito dizer que mais vale ter sorriso na cara do que dinheiro no bolso...
Bonito quando se tem dinheiro no bolso e um prato cheio, enquanto assiste sua série de TV paga. 
Pobreza de espírito é coisa feia
pobreza de dinheiro sugere riqueza espiritual... Riqueza espiritual com estômago roncando. 

Não a pobreza não é massa de fazer pizza
que a gente pega, molda e come como perfeição. 
A pobreza é choro
a pobreza é preocupação
a pobreza é dor. 

Mas não
isso tudo virou base para pensadores
inspiração para artistas
aula para professores
manobra para políticos
assunto pra cursinho pré vestibular

O que é bonito, minha gente
o que é, indiscutivelmente, bonito
é sonhar com um mundo de flores, 
flores de todas os tamanhos e cores
sonhos de todas as padarias e confeitarias 
tudo isso com barriga cheia
e teto sobre a cabeça


Figura de linguagem


Olha lá o céu, Joãozinho. 
Tá vendo? Aquela nuvem parece um elefante
daqueles bem gordinhos.
Olha! Ele tá chutando alguma coisa. 

Ah, Joãozinho, o céu é o mesmo, sabia?
É desse mesmo céu que, nos dias de chuva, 
saem aqueles trovões e relâmpagos que você tem medo

Quando isso acontece você corre pra minha cama
me abraça e eu canto alguma canção de igreja pra você dormir

No outro dia você pousa de homenzarrão, 
não quer que eu fale pra os seus amigos
que você ainda assiste desenho 
que tem medo de mertiolate...

Eu fico sorrindo. 

Joãozinho, 
esse mesmo céu é o que escurece à noite.
À noite quando o vento é mais frio e você dorme mais cedo
querendo que o outro dia comece
porque você odeia escuro
porque você é mais feliz com sol nos ombros e olhos

Ah, Joãozinho... Se eu te dissesse! 
Se eu te dissesse que esse céu bonito é o mesmo
o mesmo dos teus medos, o mesmo das tuas neuras...
Você, então, perceberia
que tudo depende de como você vê o dia
de como você pinta a vida

O céu é o mesmo, meu filho
a vida sempre vai continuar 
e a gente sempre vai ter a escolha 
de usar guarda-chuvas, 
de desenhar nuvens no chão, 
de fazer música com som de trovão,
e de viver com o sol dentro da gente.


DICA DE MÚSICA: BEN - RUBEL



Conselho de mãe


A vida lá fora tá bonita, menina
o céu tá da cor dos olhos do Hugh Laurie
Não é você que adora aquela série dele de doutor?
Pois bem, falei isso pra ver se te anima. 

A vida lá fora tá bonita, menina
tem um bocado de gente escutando música boa
debaixo daquelas árvores que parecem ter braços
Pois bem, falei isso pra ver se te anima. 

A vida lá fora tá bonita, menina
Deus abençoou a gente com um sol de cinema
o vento está tão forte que dá pra andar 
com os cabelos voando

Falei isso pra ver se te anima
pra ver se você tira a cara desse computador
pra ver se você percebe
que o tempo passa
as coisas são findas
e o que é infinito,
morre a cada ausência tua. 

Chiaroscuro


Dez horas da noite em uma cidade pequena, em plena copa do mundo. Tem um jogão acontecendo na pequena tv do bar, mas há poucas pessoas assistindo, entre bêbados e mulheres fumantes. A rua, sobrevivente de uma chuva forte, escorre sua lama de esgoto pelos poros não corrigidos pela prefeitura, e eu piso numa dessas poças. 
As bandeirinhas verde e amarelas, pobres bandeirinhas molhadas, vistas sob esse aspecto não são tão brilhantes e alegres como nos comerciais de cerveja. Minha rua continua a mesma. 
Há uma flâmula do Brasil já desgastada, sendo agitada pelo vento frio. Eu tomo a chuva na alma e aquilo me limpa de tal forma que vejo tudo claro, apesar da aparente sujeira. 
Marcam um gol, acho que foi alguma seleção do leste europeu, um bêbado se levanta e comemora, esmurrando o ar com certa raiva. Eu sorrio. 
Amanhã me acordarei no mesmo horário, amanhã comerei no mesmo horário, amanhã gastarei mais um dia, e amanhã tem jogo.
Amanhã alguém morrerá, amanhã alguém protestará e será reprimido, amanhã a mídia não vai falar de outra coisa a não ser o novo corte do jogador tal, amanhã alguém nascerá, amanhã alguém chorará, sorrirá, cantará, fará aniversário...
Amanhã essa minha rua vai receber nas suas poças de água suja a cristalização do sol e esse pobre bar ficará com o reboco desgastado pela chuva. Gritarão gol com sorrisos cheios de dentes e bafos de cachaça, se abraçarão suados, dizendo que a vida é bonita, no paradoxo cenário de rotina miserável. 

Quase um retrato


Tudo o que eu sei é que se esbarraram no meio da avenida, num dia claro de Abril, olharam-se por 3 segundos, continuaram suas vidas. 

Ele, um jovem negro, com a testa suada, uns óculos vencidos e olhos baixos, como se fosse daquele tipo de gente que sempre pede desculpa. 
O outro, senhor de idade, com a pele bronzeada pelo sol, camisa de botão aberta mostrando os pelos, tinha as mãos sujas de cimento e uma cara de cabra da peste.

Não me atrevo a dizer os seus nomes. 

Tudo o que eu sei é que se olharam como se dissessem: "Ei, vamos trocar de vida?" 

Ah! Como o mundo é pequeno para os de coração cansado!



LER AO SOM DE: MASCARADOS - RUBEL

A menina


Coitada da menina tímida, ninguém olha para ela. Ela não recebe os abraços, os sorrisos, os acenos... Ela permanece ali, quietinha, com olhos nervosos fixos em qualquer lugar. 
Coitada da menina tímida que escuta uma piada boa, mas não tem coragem de sorrir, que vê alguém falando sobre sua banda preferida e morre por dentro por não conseguir dizer que também gosta.
Coitada da menina tímida que sabe fazer as melhores caretas na frente do espelho, que imita a voz da Britney perfeitamente bem, que tem a melhor coleção de cartões telefônicos do mundo... Coitada da menina tímida que tem uma risada estranha e alta que até chega a doer os ouvidos. 
Coitada da menina tímida que tem dentes tortos, mas um incrível sorriso, que em todo o tempo parece carregar uns olhos penetradores de alma. 
Coitada da menina que trocaria o dia agitado de hoje por uma cachoeira em cima de seus ombros, que agora está com os olhos maiores, mais sugadores de tudo. 

Mas para todos ela continua sendo a mesma menina tímida dos olhos assustados e da voz baixa. 
Para todos ela continua sendo a quieta e alheia ao mundo. 

Coitada da menina tímida, ninguém perguntou como foi seu dia. 
Coitada da menina tímida!

LER AO SOM DE: NÃO MAIS - SIMONAMI