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Conselho de mãe


A vida lá fora tá bonita, menina
o céu tá da cor dos olhos do Hugh Laurie
Não é você que adora aquela série dele de doutor?
Pois bem, falei isso pra ver se te anima. 

A vida lá fora tá bonita, menina
tem um bocado de gente escutando música boa
debaixo daquelas árvores que parecem ter braços
Pois bem, falei isso pra ver se te anima. 

A vida lá fora tá bonita, menina
Deus abençoou a gente com um sol de cinema
o vento está tão forte que dá pra andar 
com os cabelos voando

Falei isso pra ver se te anima
pra ver se você tira a cara desse computador
pra ver se você percebe
que o tempo passa
as coisas são findas
e o que é infinito,
morre a cada ausência tua. 

Chiaroscuro


Dez horas da noite em uma cidade pequena, em plena copa do mundo. Tem um jogão acontecendo na pequena tv do bar, mas há poucas pessoas assistindo, entre bêbados e mulheres fumantes. A rua, sobrevivente de uma chuva forte, escorre sua lama de esgoto pelos poros não corrigidos pela prefeitura, e eu piso numa dessas poças. 
As bandeirinhas verde e amarelas, pobres bandeirinhas molhadas, vistas sob esse aspecto não são tão brilhantes e alegres como nos comerciais de cerveja. Minha rua continua a mesma. 
Há uma flâmula do Brasil já desgastada, sendo agitada pelo vento frio. Eu tomo a chuva na alma e aquilo me limpa de tal forma que vejo tudo claro, apesar da aparente sujeira. 
Marcam um gol, acho que foi alguma seleção do leste europeu, um bêbado se levanta e comemora, esmurrando o ar com certa raiva. Eu sorrio. 
Amanhã me acordarei no mesmo horário, amanhã comerei no mesmo horário, amanhã gastarei mais um dia, e amanhã tem jogo.
Amanhã alguém morrerá, amanhã alguém protestará e será reprimido, amanhã a mídia não vai falar de outra coisa a não ser o novo corte do jogador tal, amanhã alguém nascerá, amanhã alguém chorará, sorrirá, cantará, fará aniversário...
Amanhã essa minha rua vai receber nas suas poças de água suja a cristalização do sol e esse pobre bar ficará com o reboco desgastado pela chuva. Gritarão gol com sorrisos cheios de dentes e bafos de cachaça, se abraçarão suados, dizendo que a vida é bonita, no paradoxo cenário de rotina miserável. 

Quase um retrato


Tudo o que eu sei é que se esbarraram no meio da avenida, num dia claro de Abril, olharam-se por 3 segundos, continuaram suas vidas. 

Ele, um jovem negro, com a testa suada, uns óculos vencidos e olhos baixos, como se fosse daquele tipo de gente que sempre pede desculpa. 
O outro, senhor de idade, com a pele bronzeada pelo sol, camisa de botão aberta mostrando os pelos, tinha as mãos sujas de cimento e uma cara de cabra da peste.

Não me atrevo a dizer os seus nomes. 

Tudo o que eu sei é que se olharam como se dissessem: "Ei, vamos trocar de vida?" 

Ah! Como o mundo é pequeno para os de coração cansado!



LER AO SOM DE: MASCARADOS - RUBEL

A menina


Coitada da menina tímida, ninguém olha para ela. Ela não recebe os abraços, os sorrisos, os acenos... Ela permanece ali, quietinha, com olhos nervosos fixos em qualquer lugar. 
Coitada da menina tímida que escuta uma piada boa, mas não tem coragem de sorrir, que vê alguém falando sobre sua banda preferida e morre por dentro por não conseguir dizer que também gosta.
Coitada da menina tímida que sabe fazer as melhores caretas na frente do espelho, que imita a voz da Britney perfeitamente bem, que tem a melhor coleção de cartões telefônicos do mundo... Coitada da menina tímida que tem uma risada estranha e alta que até chega a doer os ouvidos. 
Coitada da menina tímida que tem dentes tortos, mas um incrível sorriso, que em todo o tempo parece carregar uns olhos penetradores de alma. 
Coitada da menina que trocaria o dia agitado de hoje por uma cachoeira em cima de seus ombros, que agora está com os olhos maiores, mais sugadores de tudo. 

Mas para todos ela continua sendo a mesma menina tímida dos olhos assustados e da voz baixa. 
Para todos ela continua sendo a quieta e alheia ao mundo. 

Coitada da menina tímida, ninguém perguntou como foi seu dia. 
Coitada da menina tímida!

LER AO SOM DE: NÃO MAIS - SIMONAMI

Nickname


Click.

A página do navegador abre. Google. "Você quis dizer: Salas de bate-papo?". Nem prestara atenção, tinha escrito salas de "ate-papo". Abre a janela, cria um nickname, digita o que consegue ver dos códigos apresentados pelo site. Entra. 

Há muitos nomes obscenos. Há nomes infantis. Ela clica num tal de "HomemMaduro", mas não digita nada; "acho que esse 'maduro' quer dizer um velho de sessenta anos coçando a bariga na frente do pc". Fecha a conversa. 

Alguns começam a lhe enviar maliciosas abordagens, ela não os responde. Outros lançam convites pra salas reservadas sem nenhuma preliminar de saudação... Ela revira os olhos.
Um internauta chamado "SolitárioEmUmaGrandeCidade" lhe desperta atenção pelo nome. Ela digita sem pensamento prévio a sua angústia diante da sinceridade do tal homem. 


Ternura30: Seu nome é um tanto deprimente.

SolitárioEmUmaGrandeCidade: É porque talvez eu o seja, rs. 

Ternura30: Duvido, rs. Você está tentando produzir uma espécie de piedade coletiva para si nessa sala. É óbvio.

SolitárioEmUmaGrandeCidade: Na verdade, me pareceu o mais sincero de todos aqui.

Ternura30: Eu devia ter adivinhado: você é mais um daqueles homens que sentem prazer em serem vítimas da vida. 

SolitárioEmUmaGrandeCidade: Você vem sempre aqui?

Ternura30: Não tanto, mas, geralmente, venho para fugir do trabalho. (Sua pergunta pareceu uma cantada péssima rs)

SolitárioEmUmaGrandeCidade: Então você é igual a mim. 

Ternura30: Hahahaha, não sou uma maníaca-depressiva que se abre para estranhos. A vida é difícil, mas a gente tem que enfrentá-la. (momentoFrasesDeAutoAjuda rsrs)

SolitárioEmUmaGrandeCidade: Bom, vc está mais sozinha do que imagina e parece não viver o que prega. 

Ternura30: Ah, tá. Ok -.- (Vc tem perfil de quem lê Augusto Cury, mas não segue as instruções de como sair de uma fossa rsrs)

SolitárioEmUmaGrandeCidade: É sério. A gente vem aqui porque, geralmente, a vida não está tão interessante. 

Ternura30: No meu caso é só tédio -.-

SolitárioEmUmaGrandeCidade: Vc realmente faz a mesma coisa que eu, moça piadista.



Você foge.

Não gosta do rumo que a conversa toma. Fecha a janela. Desconecta o bate-papo, reabre uma outra aba por pura mania de fazer isso. Encosta-se na cadeira e toma um gole de café. Põe um olhar de pedra no fundo da xícara, na escuridão de sua bebida.

Olha ao redor. Alguns quadros tortos na parede, uma moça deixando aparecer a alça do sutiã enquanto estica o braço ao chão em busca do celular caído. Há um vaivém contínuo, muitas pessoas na seção dos lançamentos, alguns casais - sempre existem os casais de filmes água-com-açúcar - na seção romântica, um velho que disfarça para entrar na sala secreta de filmes adultos...

Há os alto-falantes na frente da locadora gritando jingles de farmácias, uns garotinhos vidrados com o banner do Homem de Ferro...

Ela sacode os ombros para espantar uma tristeza repentina.

Sente-se completa e terrivelmente só.

Tira do bolso seu celular e se ocupa dando comida ao seu bichinho de estimação; um aplicativo bobo que inventaram.



LER AO SOM DE: REALIDADE VIRTUAL - ENGENHEIROS DO HAWAII 

Esperemos


Maturidade é uma palavra bonita. Acho bonita porque me lembra fruta madura, e fruta madura me lembra sabor bom. Mas maturidade também me lembra um velho funcionário público, um pouco desgostoso com a vida, porém com aquele desdém que existe quando a gente se acostuma com as coisas. E isso não me parece legal. 
O sonho de todo mundo é crescer. Meninas, quando crianças, brincam de bonecas e de comidinhas para sentirem-se um pouco maiores do que são; garotos, por outro lado, desenham bigodes em suas bochechas e em cima dos lábios para ostentarem masculinidade precoce. 
Mas um dia todo mundo definitivamente chega àquela idade convencional da maturidade - que pode ser algo relativo - e percebe que não cresceu o suficiente, que talvez esteja sofrendo de um problema de ossos e se vê desesperado diante do batalhão de super-humanos adultos com suas vidas de adultos perfeitas.
A gente acaba correndo no fluxo que predestinaram; arrumamos um emprego, temos filhos, casamos, pagamos um bom plano de saúde (porque o sistema de saúde pública é precário, dizem meus pais e professores barbudos) até que a gente pensa estar crescido e pronto. 
Pronto para quê? 
Vejo-me com um escudo, toda equipada e preparada para as guerras que me falaram. Estou atenta à todos os sons, todos os sussurros, e a qualquer alarde posso atacar e mostrar que sou completamente independente. 
"A vida é dura, você tem que estar pronto", "Cresça", "O mundo é dos fortes", "Amadureça"... Penso em todos esses conselhos, e já me enxergo com meus quarenta anos, me desarmando das guerras diárias, tirando meu escudo pesado, meus sapatos, sentada na cama com os olhos fitos no relógio, que denuncia ser fim de dia. Ainda sou eu. 
Ainda sou a menina que um dia escreveu ter medo de crescer, porque acho que mesmo com todo o conjunto de armas que tenho para enfrentar tudo, sofro com os ossos, com a altura espiritual e emocional desequilibrada diante do meu período convencional de maturidade. 
Ainda acho a palavra bonita, confesso. Acho que vai chegar o tempo em que me adequarei melhor ao conceito. Talvez realmente exista e não seja esse bicho de sete cabeças que as pessoas têm medo. Talvez a sensação de ser um gigante seja bem legal e leve. 
Esperemos. 
A palavra é bonita, então... Esperemos.

Poema da hipocrisia


Eu cansei de me comover com a dor
cansei de ter vontade de ajudar os pobres
cansei de querer ser rica para me doar
toda. 
Exclusiva.
Essencialmente.
Cansei de protestar com cliques
cansei de protestar com gritos
ou com cartazes
com petições, orações e até coragem.
Eu cansei de depois de algum prato de comida, 
perceber que roubei aquilo de alguém.
Cansei de me arrepender por estar feliz, 
mesmo não devendo nada a ninguém.
Cansei de dar um sorriso amoroso
para aquela mãe de família 
com roupa suja e sete filhos, 
como se o gesto a fosse salvar
da fome, do frio e perigo. 
Eu cansei de dar-lhes algumas lágrimas
diante das confissões de suas vidas
e em pouco tempo aquilo ser 
como uma velha canção esquecida. 
Cansei de me comover, protestar, me arrepender, chorar...
E no fim, 
como uma criança mimada, 
perceber que fiz de tudo, 
de tudo,
e não fiz nada.