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Poema da hipocrisia


Eu cansei de me comover com a dor
cansei de ter vontade de ajudar os pobres
cansei de querer ser rica para me doar
toda. 
Exclusiva.
Essencialmente.
Cansei de protestar com cliques
cansei de protestar com gritos
ou com cartazes
com petições, orações e até coragem.
Eu cansei de depois de algum prato de comida, 
perceber que roubei aquilo de alguém.
Cansei de me arrepender por estar feliz, 
mesmo não devendo nada a ninguém.
Cansei de dar um sorriso amoroso
para aquela mãe de família 
com roupa suja e sete filhos, 
como se o gesto a fosse salvar
da fome, do frio e perigo. 
Eu cansei de dar-lhes algumas lágrimas
diante das confissões de suas vidas
e em pouco tempo aquilo ser 
como uma velha canção esquecida. 
Cansei de me comover, protestar, me arrepender, chorar...
E no fim, 
como uma criança mimada, 
perceber que fiz de tudo, 
de tudo,
e não fiz nada. 

Crônica de uma noite de natal (não propriamente sobre o natal)

     


      Eu ando sempre pelo lado direito da calçada, mesmo quando existem enormes poças de água suja como obstáculos. Sinto-me mais protegida da ferocidade das pessoas apressadas, isso porque penso que caso um imprevisto aconteça, as paredes me servirão de amparo, sombra, camuflagem. Sou extremamente tímida. 
      Talvez essa minha psicose esconda uma característica forte de minha personalidade: escravidão da rotina. Acordo sempre no mesmo horário, cumprimento as mesmas pessoas, sento no mesmo assento do ônibus (quando já não está ocupado) e faço questão de ler os mesmos lambe-lambes, anúncios de cartomantes, grafitagens de jovens sonhadores com tendências socialistas... Eu me canso de mim todos os dias, mas ao mesmo tempo não crio forças para fazer algo diferente. O novo me amedronta. 
     Sou divorciada e tenho um filho com meu ex-marido. Não temos uma relação maravilhosa, mas sabemos sorrir ao falar um "oi". Eu ainda o amo,  e esse amor é um misto de dor, náusea e saudade. Saudade daquilo que um dia fomos, da pureza de nossos olhares e palavras. Náusea por todos os vícios revelados pela mesquinheza de um casamento. Dor por todas as feridas causadas pela falta de afinidade, pelo desgaste e acidez de velhos em corpos jovens. Ele não sabe disso. Eu nunca quebrei a rotina para contar-lhe. 
     É natal, mas eu não me sinto atraída por essas luzes, presépios e papais noéis. Perdoem-me, mas minha linha metódica não me permite ficar confortável em dias diferentes. Fora que tudo virou um grande leilão. De eletrodomésticos à sentimentos descartáveis. Eu só queria acordar no outro dia e pegar meu ônibus para a cidade. Sentir o cheiro de gasolina da segunda-feira. 
     Mas hoje é natal e a única coisa que me faz ter um pouco de felicidade é de saber que ficarei mais tempo com meu filho, mesmo que obrigada a estar no mesmo ambiente da mulher do meu ex-marido por um tempo. Pra completar, ainda tenho que fazer cara de surpresa no amigo oculto da casa dos meus pais, onde todos da minha família irão se juntar e me lembrar do quanto minha vida é infeliz, do quanto sou solitária e estou ficando pra titia. Eu os amo, eles devem me amar de alguma forma, mas tocar em assuntos indelicados e difíceis é, sem dúvida, lugar comum em todos os reencontros familiares.
      E ali está eu, naquela mesma pose de quem entende tudo, de quem supera tudo. Eu esboço sorrisos, finjo gostar da rabanada da minha mãe, simulo estar realmente interessada nas estórias de meu tio solteiro e minto quando meus primos mais novos me perguntam a idade. Sou um poço de sentimento de culpa, e acho o fim do mundo deixar alguém constrangido ou se sentindo mal. Como resposta, eu me transformo no centro das indiscrições e constrangimentos. Aguento tudo calada.
      De alguma forma tenho mais simpatia pelo Reveillon e sabe por quê? Porque é dia 31 e o outro dia já é ano novo. É um bilhete assinado pela vida dizendo: "Pronto. Encerramos sua cota de sofrimentos". Mesmo que seja uma baita de uma mentira. Mesmo que eu acorde com a cabeça doendo por tanto beber pra não doer as mandíbulas dos meus sorrisos forçados. Mesmo que eu saiba que eu tive a chance de contornar minhas dores, mas mesmo assim preferi tomar uma anestesia pra continuar vivendo. 
     Viver me dói, e eu me escondo em compromissos, relatórios e calçadas para não dar de cara com a má sorte de saber que poderia ter feito diferente e não fiz. Minha rotina é minha fuga. É como se eu fora uma escrava consciente de seu cativeiro que sente-se mais à vontade em sua jaula do que vulnerável à leões, mesmo que livre. 
     Estão me chamando lá dentro, acho que querem ver minha cara de bêbada para eu ser a piada da noite. Estou exausta e esse é meu estado de espírito. Não quero mais anestesia, porque não sei mais se a dormência é melhor que a dor de viver. Que droga! Estão gritando mais alto. Lá vou eu, cambaleando, com uma dor enorme no peito e um ódio eterno por dias festivos. 

Ah, antes que me esqueça: Feliz Natal.

LER AO SOM DE: UM DIA APÓS O OUTRO - TIAGO IORC

Moça

Ela veste avental,
avental molhado de água suja. 
Seus cabelos são belos, 
mas estão presos e desarrumados.

Ama cinema, 

moda e decoração, 
mas quase ninguém escuta
o que diz seu coração. 

Ela doa sangue todos os dias. 

Litros e litros. Suas mãos tremem de fraqueza.
Doa vida aos seus sanguessugas.
Ela os ama. 

Mas eles não querem os seus olhos brilhantes, 

não querem ouvir suas músicas, suas piadas, 
eles não querem a sua liberdade, 
as suas gargalhadas...

O que eles querem é sua submissão, 

sua voz baixa, seus olhos no chão.
Eles querem falar em tom mais alto, 
querem os ouvidos sempre atentos, 
e sua sensibilidade para abraços. 

Ela não tem tempo para tirar seu avental.

Deseja voar, sair dali...
Deseja ter outra coisa para vestir. 
Ela tem vontades, tem desejos, 
tem sonhos.

As lágrimas são as únicas armas,

mas ela tem que chorar baixinho, 
água quente para as mãos cansadas, 
orando ao seu Deus carinho. 

Moça de avental, quem dera ter no meu abraço

a fuga pra tua dor! 
Iria viver te afagando,
como se quebrando teus grilhões.

Moça de avental, quem dera doar-te

um pouco de vida, 
uns olhos altivos e vivos,
e, quem sabe, se possível
um mundo mais amigo...


Segunda-feira

   

    Quatro horas da manhã e alguns minutos. Não dava pra enxergar muito bem, principalmente para alguém que estava acordando naquele exato momento como Adriana e com a visão embaçada. Ao tentar checar o horário, esticou os braços por cima do marido, que dormia ao seu lado, para alcançar o objeto que estava na cabeceira na outra extremidade da cama. João estava atrapalhando com sua barriga de casado. Casado há mais de vinte e cinco anos. 

     Não era um dia excepcional, não. Era segunda-feira. Adriana tinha muitas coisas a fazer. Levantou-se e mecanicamente foi ao banheiro, lavou o rosto, olhou-o. Velha. Estava velha e com os olhos cansados. Arrastava a perna esquerda, seus ossos doíam... Mas tinha roupa pra lavar, almoço pra fazer, casa pra cuidar. 
   João era um bom homem: não bebia muito, não fumava. Caminhoneiro, mãos grossas, andar duro, olho vivo. De vez em quando, quando dava, os dois iam ao bar do Carlito dançar um forró. Era uma vidinha humilde, de gente de interior... Adriana nunca trabalhara por João não aceitar, e tinha estudado até a quarta série, mas dava umas ajudas com umas roupas que lavava. 
   Tiveram filhos muito jovens, e fora esse o motivo de terem casado cedo. João Filho, Marilene, Maria Joaquina e Josué compunham os quatro filhos do casal. Maria Joaquina e Josué, respectivamente, dezoito e quinze, moravam com os dois. João Filho e Marilene já tinham suas vidas. Maria, casada e diarista, João, motorista e solteiro. 
    Adriana via seus filhos mais velhos periodicamente, sentia saudades, mas sabia que tinha que ser assim. Sua relação com o marido era sólida o suficiente para não ter aquela preocupação de amor. Se o amava? A mulher nem tinha tempo pra pensar nisso. Só tinha tempo para esfregar as roupas, sacolejar suas carnes pelo esforço, branquear suas mãos negras com a espuma do sabão. Cuida logo, Adriana. Teu homem sai cedo, ele tem que comer. Ela prepara um café forte, um cuscuz com carne como todo nordestino gosta e, com um sorriso de mãe, coloca á mesa. Liga o rádio, ouve umas músicas, sai cantando. 
    Alta no dólar? Maria nem sabia do que se tratava, só sabia que o real tava em baixa em sua vida, e sorria, sorria com aquela felicidade de gente sincera. Não havia ambições altas, só queria um colchão melhor pra descansar as costas velhas e os pés rachados. Seu mundo era sua pequena casa, seus afazeres domésticos... Sua poesia era a rua, as gentes que conversava todos os dias.
    O homem se levanta. Come como se tivesse raiva. Adriana sorri pra si mesma e pensa na tarde que o conheceu. O rádio anuncia que o Brasil está numa nova fase, que os pobres, que os pretos estão mais inclusos... João se levanta falando alguma coisa com sua voz de trovão. Adriana, por sua vez, vai desligar o fogo e secar suas mãos frias da água, água esta que sempre a acompanhou por essa vida pequena, por essa vida injusta, por essa vida que se fez feliz em vassouras, suor e sorrisos cheios de dentes. 

LER AO SOM DE: SIMPLICIDADE - PATO FU

Então? Já virei adulta? (Atenção: este é um texto confuso. É sério.)




    Simultaneamente as coisas vão acontecendo. Um dia você tem doze anos, assiste High School Musical e acha o máximo, em outro você simplesmente acorda querendo ler Dostoiévski... E com dezoito na cara. Sabe o que é confuso? O que a gente acaba fazendo com as etapas da vida. É como se fizéssemos prateleiras, catalogadas, devidamente classificadas: "De 1 á 9, criança; de 9 a 13, pré-adolescente; de 13 á 17, adolescente..." 
   Certo. A boquinha acabou. Não sou mais uma adolescente segundo nossa regra e... Para mim, apesar de algumas mudanças, não me sinto, em nada, uma adu... (difícil até de escrever) adulta. 
Este é meu último ano no colégio (tempo para lágrimas), primeira vez em vestibular, mistura de sentimentos, pouca confiança, medo do futuro, em construção de personalidade, de gostos, de metas... Enfim! Uma mistura. 
     A gente cresce com aquele conselho pronto que a escola dá, que a família dá: "Seja alguém na vida"mas... O que seria verdadeiramente o sentido de SER alguém? 
Se o critério for entrar no colégio, passar no vestibular e conseguir o emprego, respectivamente, eu tô tentando satisfazer essa ação social de valor tradicional.
Mas... E depois? 
Vou voltar pro colégio, passar em outro vestibular e conseguir outro emprego? 
Vou me casar com o primeiro que aparecer? Vou ter dez filhos para me ocupar e montar uma canoa pra atravessar o oceano? Ou tentar minha vida no funk lançando vídeos no youtube?
    Tudo bem, eu tô ouvindo música melhor hoje em dia, tô tentando ler Dostoiévski, finalmente entendi a diferença entre revolta e revolução e acho que tenho uma posição política formada. Mas isso não quer dizer que eu tenha amadurecido, que eu esteja pronta para o mundo, que eu não tenha medo do que irá acontecer, que eu me enxergue como adulta. 
   Pra falar a verdade nem sei se existem adultos. No fundo sinto que vou ter essas incertezas para sempre, mesmo com um emprego fixo, sendo mãe, esposa, carregando pastas... Sempre vou me sentir como uma criança que acaba de dormir sozinha pela primeira vez. E com a porta fechada. 
É assim mesmo? Eu já sou adulta, então?
Ok. Então sou adulta. Fique ereta, Thaínes. Respire dez vezes antes de uma decisão. Chegue meia hora antes do marcado. Não abra mão do salto alto, hein? E... Ah, antes que me esqueça: pegue um bloquinho e vá fazendo as contas do que falta na feira. 



LER AO SOM DE: O MUNDO É UM MOINHO - CARTOLA


Coração de lata



E um dia a gente acorda e percebe
que tudo mudou.
Os sorrisos são calculados,
as atitudes são medidas,
os abraços não são apertados,
a vitória, vencida.


Aquela pessoa que você amou,
que, de alguma forma, foi seu mundo,
hoje é um desconhecido, dono de seus "bons - dias"
Os que marcaram sua vida,
nem se dão conta do quanto,
tomam chuva e sol, sangram, como qualquer outro assassino,
que você insulta de sua poltrona.
 

Hoje o céu está azul,
Mas ninguém se importa,
A liberdade é uma prisão,
contida com balas de borracha,
suas lágrimas não são mais ureia, são produtos químicos de um gás lacrimogêneo. 


Esse país chora 

e seus gritos estão silenciados nos muros da cidade.
Ninguém é de ninguém,
ninguém é ninguém.


Há muito tempo que isso aqui morreu,
há muito tempo que você e eu morremos
a revolução começou quando nos demos conta disso


A morte que há não é só a física,
nem também a da democracia e das questões sociais;
Morremos no dia-a-dia, esquecendo do que nos faz gente.
Somos gente ainda ou viramos robôs?


Robôs que matam em questão de segundos
Matam almas, matam corpos, e quando
não há mais corpos, ou carnes, ou algo vermelho sangrando,
Ou algo inocente chorando, matam a si mesmos. 


No dia em que eu morrer, quero pôr a mão no coração
pra confirmar que não foi de bala,
No dia em que eu morrer, quero pôr a mão no peito
e perceber que não virei lata. 




O Ciclo Viciante - Fernanda Muniz - Os Sinceros




Quando abri meus olhos, cansado, o dia mal havia chegado. Pela pequena janela que havia ao lado de minha cama, pude ver a luz acinzentada de um dia que prometia mau tempo.

Por conta de tudo dentro de mim que me atormentava, me parecia que o mau tempo era proposital , como algo que estivesse ali para me provocar. Poderia ser também que os sentimentos que pulsavam aqui dentro estivessem refletindo no céu, agora mais claro, mas ainda nublado, que me pressionava lá fora.

 Pressão. Não encontrei um melhor termo para expressar como estava me sentindo. Tudo em volta me parecia normal, inofensivo. A típica "bagunça organizada" denunciava o desleixo, com algumas roupas fora do lugar e copos deixados em cima da bancada. O ambiente permanecia o mesmo, era comum, familiar. Talvez o que o deixava diferente e desconfortável fossem meus sentimentos, lembranças e angústias.

Passei o dia pensando em todas as decepcionantes conclusões as quais havia chegado tão recentemente e em como esse tipo de pensamento fazia com que eu olhasse tudo ao meu redor com outros olhos. Olhos mais maduros, mais sensatos, porém ainda decepcionados.

Depois de muito tempo, saí de casa com o intuito de esfriar a cabeça, tentar esquecer um pouco os problemas.

Andei por muito tempo, me pareceram horas. Andei até chegar numa ponte não tão próxima da cidade. Chegando lá, parei e me debrucei sobre o parapeito frio da ponte. Olhei para cima, o sol já se punha e a cor do céu era estonteante. O alaranjado forte em meio às nuvens era incrível. Todas as pessoas em volta andando apressadas, concentradas em seus próprios interesses. Daquela maneira, invisível, em meio a tantos estranhos, ainda trazendo comigo o peso que havia acordado em minhas costas, me sentia mais perdido e sozinho. Assistia ao misto de cores que se transformava rapidamente no céu enquanto mais um dia se passava e me arrastava para cada vez mais longe de minhas antigas esperanças, que agora passei a ver, com meus novos olhos decepcionados, como ilusões.

Tudo em volta mais uma vez me pressionando. A mudança de cores rápida acima de meus ombros lenta e dolorosamente me mostrava que mais um momento de escuridão estava a caminho. O desespero era tangível e me encontrava desconsertado, sem saber o que esperar ou fazer em relação a qualquer coisa.

Dentro de mim tudo estava remexido e, quase sem perceber, a pressão suportada durante todo esse tempo foi liberada do jeito mais primitivo: num grito.

E depois de toda a tensão, volto para casa na nova esperança de que o tempo melhore as decepções e que eu me sinta confortável novamente em meio a roupas jogadas e copos por lavar.
 
 
Fernanda Muniz é uma paulistana de dezessete anos que contribuiu pra o blog com sua interessante releitura do quadro "O Grito" do expressionista Edvard Munch. O legal é que esse texto foi originalmente feito para uma redação com o fim de descrever o personagem do quadro de Munch. Ficou muito bom não foi?
 
 
 

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