Páginas

O Soldado que Chora


Passos ao chão, poeira subindo.
São eles; os soldados, os fortes que lutam e pela vida morrem.
Proclamados heróis e ostentando a honra como bandeira, continuam andando rumo á luta, rumo á guerra.
Tem em seus rostos a expressão endurecida de quem já passou por tudo... Por pelo menos quase tudo.
Caminham em silêncio e com cautela, como se qualquer movimento em falso denunciasse a catástrofe.

Mas por trás de toda essa fortaleza, habita a fraqueza. Ninguém imagina, mas esses olhos carregados de certezas, são nada mais do que olhos que choram.
Esses soldados valentes e fortes, também têm medo e muitas vezes fracassam em suas escolhas... Muitas vezes se frustram em suas guerras diárias.
Esses soldados não são nada mais do que humanos. Limitados.
Pessoas comuns que encontramos á cada passo, que esbarramos na fila do banco, que acenamos na rua...
São os que passam na frente da sua casa, os que ensinam com esforço no caos da educação nacional, os que dão sua vida por outros na segurança pública como policiais, os que vendem na beira da praia...
Esses soldados, mais do que tudo, somos nós mesmos.

A Revolução de Nós Mesmas



        Ligue a TV.
Estou te convidando para passear, para analisar e refletir sobre um tema não tanto discutido nos dias de hoje. Sei que você não deve está entendendo muito bem o que escrevo, mas já adianto que tudo isso não é desconhecido a seus olhos. Já de pronto, assim quando você aperta o botão, a primeira imagem que vem é de um comercial de cerveja. As praias sempre são ensolaradas, as pessoas parecem estar em um eterno feriado e as mulheres, geralmente seminuas, transformam-se em objetos comparativos com o próprio produto. Não é diferente das propagandas de carros que usam da clássica estratégia de que você irá conquistar a mulher dos sonhos quando comprar o carro do ano.

O reclame não dura muito e a novela das sete começa. Nessas tramas sempre existem núcleos, e em um desses um conflito se desenvolve: um homem, uma mulher e uma amante. Fazendo disso um romance, o autor induz o telespectador a aceitar o triângulo amoroso como uma nova modalidade do mundo moderno. E onde fica a mulher nessa história? Torna-se um objeto de prazer, um animal irracional guiado pelos instintos selvagens.

Mas se analisarmos, toda essa escravização machista regida pela mídia abrange muito mais do que comerciais e novelas; vem de um conceito formado pelas próprias mulheres de que “quanto mais bonita for, mas bem sucedida serei.” Não é a toa que a indústria que mais cresce no país é a de estética. Chega a assustar as lotações nos consultórios de cirurgias plásticas e os inúmeros cremes de rejuvenescimento. Tudo isso para ter o corpo igual ao da loira bonitona do comercial, ter o nariz da Ana Hickmann...

E não pense que essas mulheres são as que repudiam toda essa desvalorização ao verem tal comercial, programa ou novela, ao contrário; são elas as que assistem e invejam o corpo da loira, as que torcem pelo bom final do triângulo amoroso, e as que se imaginam desejadas pelo homem que comprou o carro. Simplesmente toda essa desmoralização está enraizada nos próprios conceitos da ala feminina brasileira. Está no complexo inferior, na autocomiseração em ser mulher.

E isso é ratificado com ênfase em meados de fevereiro, quando o carnaval toma conta do país. Não é difícil se ver mulheres completamente nuas pintadas, claro, para que não se perca a “prudência”, afinal, não se é permitido ficar completamente nua em público. E ainda por cima se há uma disputa acirrada sobre quem deverá ser a rainha daquela escola. As vezes me pergunto se isso não é uma questão pessoal de cada uma, se isso não é apenas uma máscara para disfarçar que aquela Maria deseja ser rainha, pelo menos por alguns segundos. Se aquele desejo por brilho, não é uma vontade de ouvir: “Hoje você está bonita”.

Pronto. Desligue a TV. Agora você pode entender o que me levou a escrever. A revolta com tudo isso me incomoda profundamente. Acredito que ainda existe possibilidade de uma reviravolta, basta olharmos para nós e percebermos que valemos muito mais do que o que dizem. E não me contento em dizer que isso é uma revolução feminista, vai muito mais além; Estamos diante da revolução de nós mesmos.

Os Paradoxos da Geração Coca-Cola


Crescer vendo-se em um mundo que se transforma a cada dia, é um desafio que cabe á cada um de nós, pobres habitantes.
Diante de tantas reformas, guerras e períodos gloriosos; onde a inteligência evoluiu e pôde-se descobrir a cura para tantas doenças... Vemos que essa geração é por fim a mais irracional e desesperada desses últimos anos.


Desespero na verdade sempre foi um sinônimo relevante de cada indivíduo, porém o grande paradoxo que se alastra sobre estes anos é a irracionalidade da geração mais evoluída: a geração pós-moderna ou geração coca-cola (como na música).


Ao mesmo tempo em que estamos interligados mundialmente pela maior rede de computadores do mundo (a internet), estamos cada vez mais distantes. Ta aí outro paradoxo que me intriga...

As salas de bate-papos lotam, o número de usuários do Facebook aumenta cada vez mais, o jornal impresso cai dando lugar ao jornalismo virtual, as pessoas soltam indiretas pelo Twitter, e na realidade; nada muda.

Continuamos com o sinônimo que nos une: o desespero.
Tudo resume-se a isso.

O desespero de temer ficar só, de olhar para o lado e não ver mais ninguém. De comer sozinho na cozinha, de assistir á reprises de séries antigas em um dia de sexta-feira...

É impressionante o que a carência humana produz: Além de agregar alguns em salas de bate papo á procura de um amor, conduz á vários para uma verdadeira terapia em grupo, onde todos desabafam segredos numa rede mundial na qual todos vêem.

 É. de longe se vê que a sanidade não mais faz parte do vocabulário social e que apesar de termos evoluído conforme a cadeia hereditária, na realidade permanecemos os mesmos desesperados de sempre, a única diferença está na intensidade.







A Simplicidade Da Vida


Hoje não vim falar sobre poesia, nem livros "cult". Muito menos sobre filósofos que assim como todos nós também procuram o sentido da vida, nas palavras, demasiadamente difíceis.
Cansei de procurar nos dicionários palavras que se encaixem na definição certa do que realmente é a vida. Cansei de ouvir MPB por alguns dizerem que Chico Buarque é o poeta...
Cansei de fazerem um caminho por mim, e de caminharem com minhas pernas para um lugar onde me falam ser a sabedoria.
Existe algo á mais do que superlativos bobos de filmes premiados. Algo bem mais importante do que frases feitas em diálogos de livros de auto-ajuda.
Na verdade, existem coisas tão mais importantes que isso tudo, mais importantes que todo o mundo, que todo mundo no mundo. Existem palavras tão mais essenciais que os nomes científicos, existe mais humanidade do que Homo Sapiens.
Existem os "Você está bem?" sinceros na multidão dos "Eu te Amo" fingidos... 
Há mais do que roupas caras e carros conversíveis do ano... Muito mais do que Outdoors de modelos de roupas caríssimas.
As coisas simples da vida, sim, os detalhes são os que mais importam nessa jornada. Sei que isso é bem clichê, mas no final de sua vida você provavelmente não irá lembrar de quanto foi seu apartamento beira-mar, ou que cores foram seus vestidos de gala.
O que realmente importará nisso tudo serão os bons momentos, as boas risadas com os velhos amigos, o abraço apertado, os olhos molhados depois de um filme emocionante com a família, um belo pôr do sol no fim da tarde de um domingo, a cor dos olhos de quem você um dia amou... Enfim, fica evidente de que tudo passa e que essas parafernálias e objetos materiais são tão banais quanto fúteis.
Por isso não vale a pena esquentar a cabeça com essas ou outras coisas... Aproveite, viva!
Porque afinal, você nem sabe se amanhã estará vivo.

A sabedoria da vida habita na simplicidade de quem vive.




Alguém Que Decifre Os Meus Códigos


Um dia desses me olhei no espelho, por motivos de tédio e não me reconheci.
Estava com uma aparência diferente da de anos anteriores. Talvez um pouco mais bonita, se bem que não tenho tantos pontos positivos nesse requisito. Os sinais do tempo estavam todos ali, e por mais que muitos defendam que o exterior não mostra o interior... O tempo estava denunciando através de minha aparência que eu havia mudado.
Meus olhos permaneciam os mesmos, com sua tonalidade original, mas meu olhar, meu jeito de olhar era diferente. Minha boca ainda era a mesma, porém minhas palavras pareciam mais desconexas que antes, e sem fundamentos.
Eu procurava algo naquela imagem, aquilo me deprimia. Eu procurava por mim mesma e por mais que estivesse ali, sabia que já não era a mesma.
Há quem diga que nosso futuro dependerá de todos aqueles sonhos convencionais que nossos pais sonharam para nós.
Muitos dizem que tudo dependerá decisivamente de outra pessoa que irá nos completar e carregar nosso fardo pesado.
Definitivamente acredito nessa teoria...
Não sei nada além de meu nome e de onde vim, mas isso não me define, ser um poço fundo de dúvidas é atormentador.
Quero alguém que decifre os meus códigos, que enxergue o que há por detrás dos meus olhos cansados.
É sempre esse o fim dos desesperados, ser acolhido por outro.
Mas o que me intriga é esse paradoxo que contemplou o evangelho pregado por Jesus. Essa obssessão de se ajudar os outros, mesmo quando suas dúvidas são as mesmas que as do ajudado.
Sou um poço de dúvidas e inconstâncias, porém, procuro sempre olhar ao lado, na esperança de que alguém me explique o que está acontecendo e com isso me faça descobrir quem sou de verdade.
Talvez eu esteja vivendo uma crise de idade, ou quem sabe de identidade, mas o cômico lado dessa esfera dramática da vida, é que alguém também procura por mim para decifrar seus códigos imperfeitos... Grande ironia!
Nos apoiamos em Deus por ele ser perfeito e ter respostas para todos nossos sofrimentos, mas o Mesmo Deus escolhe os miseravelmente humanos da terra para ajudarem outros. E isso é reconfortante... Saber que o outro também passou por fracassos, e que dentro dele também há um animal nos faz nos sentir menos constrangidos.
No final de tudo, não obteremos as respostas para as nossas perguntas e questões existenciais, isso á princípio pode soar um pouco pessimista, mas o que pode ser apaziguador numa hora dessas é saber que mesmo não se tendo respostas para tudo, mesmo não conhecendo nossa própria evolução ou nosso olhar diante de um espelho, o que me conforta é saber que existirá alguém que irá me abraçar e me fazer sentir uma humana como qualquer outra.
Porque afinal de contas:

"... Nós somos os protetores uns dos outros. Mais ainda: somos os guardiões da nossa própria humanidade." 

(Trecho extraído do Episódio 12 da 4º temporada do seriado americano Grey's Anatomy. Citação da personagem Meredith Grey)  

LER TEXTO AO SOM DE: BROKEN - LIFEHOUSE



Natal - De quem é o dia?


Enfim, 24 de Dezembro. Ao olharmos pela janela do quarto, naturalmente encontraremos casas decoradas com enfeites natalinos, portas contempladas com um "Merry Christmas" (mais uma prova que ainda vivemos sob um domínio estrangeiro), pessoas, talvez até desconhecidas nos saudando com graciosidade não vista em outras datas. Pinheiros imensos ornamentando a frente da cidade, vários homens vestidos de Papai Noel iludindo algumas crianças...
E sempre as tais repetições na TV, como alguns especiais de Natal, e uns filmes hollywoodianos na Sessão da Tarde, além de claro, a clássica música "Então é Natal" da Simone.
O dia, mesmo sendo diferente, na verdade é igual a todos os outros dias de natal. Por quê falo isso?
As famílias se reúnem em suas respectivas casas, comem até se fartar, trocam presentes no Amigo Oculto, mas no final de tudo isso... Sobram apenas alguns bêbados na rua, vários dorminhocos e algumas garotas preocupadas com o peso.
Amanhece, a roupa nova já foi vista por toda a cidade, muitos elogiaram a maquiagem e a escolha do sapato, e agora é só acordar e viver outro dia comum.
Mas o que me intriga é o porquê do esquecimento do essencial? Porquê todos se preocupam com ornamentações, roupas e glamour quando o que de fato é, na verdade é tão simples quanto importante?
Dia 25 de Dezembro é o aniversário do Salvador do Mundo. É o dia mais especial do ano, por se fazer menção ao ser que mais amou e que mais ama na face da terra e em toda a galáxia!
É impressionante como as pessoas não se dão conta disso... Ao invés disso preferem viver esse dia como um dia marcado de vermelho no calendário da cozinha.
Infelizmente o Natal deixou de ser um dia propriamente ingênuo onde o objetivo é a lembrança de Jesus, para ser mais um desses dias comerciais, onde as pessoas fartam-se dos seus bens, comem e se esbanjam de roupas novas para permanecerem os mesmos, fazendo dessa data tão importante, uma desculpa banal para ser novamente fútil.


Uma Maria não sei de Quê

"Enquanto houver sol... Ainda haverá"

Maria cantava essa música enquanto andava para ir á parada de ônibus. Seus olhos eram limpos e castanhos, assim como o frescor daquela manhã de dezembro.
No jornal anunciava ser verão, ela sabia que inevitavelmente o clima influenciaria seu humor para o fim de ano.
Eram seis e vinte e cinco da manhã, os ruídos dos carros já eram notados, e a cidade já estava acordada... Na verdade, a cidade nunca dormia. 
Apesar de estarem limpos, não se disfarçavam as olheiras que encobriam os mesmos olhos. Seu semblante aparentava estar abatido, era magra, cabelos não tão arrumados.
Maria não era bonita, também não era feia.
Tinha sua fisionomia de um exótico, que ao mesmo tempo misturava-se com o comum de tantas "Marias" brasileiras...

"Quando não houver saída..." Continuava cantando. Sua voz mais parecia com um sussurro surdo, talvez por timidez, já que se tinham algumas pessoas na parada do ônibus.
Apesar de tudo aparentar ser belo, sua vida não era de todo flores. Conhecia bem os espinhos, essas metáforas baratas em tudo abrangiam sua vida.
Tinha vinte e um anos, e um monte de sonhos... Uns possíveis e convencionais como o de se formar, ter um emprego fixo, casar e ter uma família estruturada, e outros tão altos e talvez impossíveis, que até se ria deles.
Seus sonhos eram seu ponto de escape nas tantas inconformidades e frustrações em que convivia rotineiramente.
Tinha sido iludida por um cara, engravidara do mesmo na adolescência, em consequência perdera os estudos. Sua filha tinha seis anos, e ainda morava com sua mãe.
Seu pai, estava em coma á dois meses desde um acidente que levara e não se tinha um resultado positivo segundo os médicos.
Sua vida estava tão confusa quanto um trânsito congestionado, porém seu rosto apenas denunciava calma naquela parada de ônibus.
Cantava tranquilamente esse clássico dos Titãs "Enquanto Houver Sol", como uma modinha ou fado português... Talvez não estivesse se dado conta ou analisado a letra em si...
Grande ironia! A tal letra falava de esperança, logo pra ela. Logo para aquela menina dos sonhos frustrados pela vida.

Na verdade nada importava para ela. O que realmente era importante era saber que aquele dia estava incrivelmente lindo. Ela precisava acompanhar o ritmo da cidade e ir trabalhar.
Um ruído tinha juntado-se aos tantos daquela rotina; era o ônibus aguardado de Maria. Provavelmente aquele seria mais um dos seus dias iguais, na grande luta de cada dia, das vinte e quatro horas batidas no tic tac do seu relógio de pulso.
Subiu no ônibus com sua mochila de sempre. Acomodou-se em um dos primeiros assentos, observou a janela como fazia de costume e voltou a cantar sua música do dia... Aquelas em que não se sai mais da cabeça:
"Quando não houver esperança,
Quando não restar nem ilusão.
Ainda há de haver esperança
Em cada um de nós
Algo de uma criança."

O ônibus seguiu seu caminho, e a cidade continuou seu barulho, como música, que misturava-se á cada sentido com os cantos de tantos outros como Maria.

LER ESSE TEXTO AO SOM DE: ENQUANTO HOUVER SOL - TITÃS